{"id":22020,"date":"2026-06-24T14:52:23","date_gmt":"2026-06-24T14:52:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22020"},"modified":"2026-06-24T14:52:52","modified_gmt":"2026-06-24T14:52:52","slug":"saramago-no-secundario-alunos-e-professores-refletem-sobre-a-revisao-do-programa-de-leituras-obrigatorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22020","title":{"rendered":"Saramago no secund\u00e1rio: alunos e professores refletem sobre a revis\u00e3o do programa de leituras obrigat\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><strong><em>\u201cLisboa est\u00e1 cheia de medo, mas finge que n\u00e3o, as pessoas baixam a voz quando falam, olham para os lados antes de dizer o que pensam, e no entanto tudo parece igual, os el\u00e9tricos passam, os caf\u00e9s est\u00e3o cheios, a vida continua como se a vigil\u00e2ncia n\u00e3o estivesse em toda a parte.\u201d<\/em><\/strong><\/p><cite>Jos\u00e9 Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Por: <\/strong>Catarina Pereira (aluna do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>A poss\u00edvel revis\u00e3o do programa de Portugu\u00eas do ensino secund\u00e1rio reacendeu o debate sobre o papel da literatura na escola. No centro da pol\u00e9mica est\u00e1 o nome de Jos\u00e9 Saramago, \u00fanico nobel portugu\u00eas da Literatura, cuja eventual sa\u00edda das leituras obrigat\u00f3rias foi amplamente noticiada e gerou rea\u00e7\u00f5es de alunos, professores e figuras p\u00fablicas. Nas entrevistas realizadas entre alunos e docentes, a opini\u00e3o foi un\u00e2nime relativamente \u00e0 import\u00e2ncia de Saramago, no entanto, tamb\u00e9m consideram que \u201cSaramago \u00e9 fant\u00e1stico, deve merecer reconhecimento, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Carina, aluna do secund\u00e1rio, destaca o valor hist\u00f3rico e liter\u00e1rio de <em>O Ano da Morte de Ricardo Reis<\/em>, obra que estudou em contexto escolar. Ressalta a descri\u00e7\u00e3o e contextualiza\u00e7\u00e3o do autor sobre o que foi a ditadura do Estado Novo, que o romance permite compreender melhor. O autor estabelece tamb\u00e9m pontes com outros autores portugueses, atrav\u00e9s de m\u00faltiplas refer\u00eancias a Fernando Pessoa e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A aluna considera que retirar Saramago seria uma perda, n\u00e3o s\u00f3 pelo seu estatuto como Nobel da Literatura, mas pela riqueza das suas \u201cintertextualidades com tudo, Ces\u00e1rio verde, muitos autores do 10\u00ba e 11\u00ba ano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cA cidade \u00e9 feita de ruas estreitas e largas, de gente que passa sem se ver, de trabalhadores cansados e sombras que se arrastam pelas paredes, como se Lisboa fosse um corpo doente que respira devagar sob o peso da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.\u201d<\/p><cite>Jos\u00e9 Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m aluna do 12\u00ba ano, Alice considera a obra de Saramago particularmente cativante. \u201cAchei particularmente interessante, \u00e9 uma narrativa que cativa a aten\u00e7\u00e3o, acho que \u00e9 um livro interessante de ler e de estudar\u201d, afirma a aluna. Alice valoriza a capacidade de abordar simultaneamente temas hist\u00f3ricos, como a ditadura, \u201cque \u00e9 uma coisa muito importante de se falar\u201d e dimens\u00f5es humanas, como as rela\u00e7\u00f5es amorosas. \u201cH\u00e1 um pouco de seriedade relativamente \u00e0 ditadura, a perspetiva amorosa para quem prefere, o que \u00e9 muito interessante.\u201d Apesar de admitir que a pontua\u00e7\u00e3o pouco convencional constitui um obst\u00e1culo inicial, considera a escrita acess\u00edvel. \u201cNo meu caso pessoal, o que me dificultou mais a leitura foi mesmo a quest\u00e3o da pontua\u00e7\u00e3o, quando somos primeiramente confrontados com esse livro \u00e9 o mais dif\u00edcil, \u00e9 compreender os di\u00e1logos, as pontua\u00e7\u00f5es. Tirando isso eu acho que a escrita at\u00e9 \u00e9 acess\u00edvel\u201d. Defende ainda a import\u00e2ncia de manter obras contempor\u00e2neas ao lado dos cl\u00e1ssicos no percurso escolar, \u201cdeve haver um pouco de tudo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"755\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/b78a59ad127e98ee9650c6a5493c0714.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22100\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/b78a59ad127e98ee9650c6a5493c0714.jpg 755w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/b78a59ad127e98ee9650c6a5493c0714-300x157.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/b78a59ad127e98ee9650c6a5493c0714-390x205.jpg 390w\" sizes=\"(max-width: 755px) 100vw, 755px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foram ainda entrevistados dois professores, Ant\u00f3nio Mendes e Teresa Fonseca. Ambos concordaram na relev\u00e2ncia liter\u00e1ria de Saramago, \u201cSaramago \u00e9 extremamente importante por v\u00e1rios motivos, al\u00e9m de ser o nosso Pr\u00e9mio Nobel, ele fala de assuntos que s\u00e3o extremamente importantes ainda na atualidade\u201d, afirma um dos professores. O professor Ant\u00f3nio considera que o autor continua a abordar temas profundamente atuais, como a liberdade, a democracia e o papel do povo na constru\u00e7\u00e3o da sociedade portuguesa. \u201cPorque os tempos s\u00e3o c\u00edclicos\u201d, \u201ca qualquer momento podemos cair noutras ditaduras\u201d e \u201c\u00e9 importante termos um autor que \u00e9 contempor\u00e2neo e que fala dos assuntos dos tempos atuais\u201d. Obras como <em>O Ano da Morte de Ricardo Reis<\/em> ajudam a refletir sobre acontecimentos e fen\u00f3menos que continuam na realidade atual.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os docentes contestam a forma como a tem\u00e1tica foi abordada pela comunica\u00e7\u00e3o social. Ap\u00f3s verifica\u00e7\u00e3o, concluiu-se que a proposta nunca foi retirar Saramago da lista de leitura obrigat\u00f3ria do 12\u00ba ano de portugu\u00eas, mas sim aumentar o leque de op\u00e7\u00f5es, incluindo autores como M\u00e1rio de Carvalho com a sua obra <em>Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. <\/em>Em t\u00edtulos e manchetes publicadas sobre o assunto, as express\u00f5es utilizadas levam quase sempre o leitor a deduzir pelo t\u00edtulo que a proposta seja a retirada do premiado. Numa not\u00edcia publicada pela SIC Not\u00edcias, o t\u00edtulo escolhido foi \u201cSaramago pode deixar de ser leitura obrigat\u00f3ria no 12\u00ba ano\u201d, e o subt\u00edtulo foi \u201cJos\u00e9 Saramago, Nobel portugu\u00eas da Literatura, pode deixar de ser obrigat\u00f3rio no 12\u00ba ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigat\u00f3ria\u201d. Um subt\u00edtulo como este pode suscitar d\u00favidas na compreens\u00e3o, visto que o que separa as duas tem\u00e1ticas \u00e9 um ponto e v\u00edrgula, podendo dificultar a interpreta\u00e7\u00e3o dos leitores. &nbsp;Para estes docentes, a controv\u00e9rsia ter\u00e1 resultado de uma interpreta\u00e7\u00e3o simplificada. \u201cA forma como a comunica\u00e7\u00e3o social em Portugal deturpa aquilo que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o, porqu\u00ea? Porque \u00e9 Saramago\u201d, questiona e responde o professor Ant\u00f3nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudantes reconhecem que a pontua\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos podem causar estranheza numa primeira leitura, mas consideram que a linguagem em si n\u00e3o \u00e9 particularmente dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os professores admitem que muitos alunos n\u00e3o chegam a ler realmente as obras, da\u00ed as dificuldades. Ainda assim, defendem que a dificuldade faz parte do progresso e que \u00e9 essencial para o crescimento do aluno. \u201cSaramago quando temos 17 ou 18 anos, \u00e9 um osso muito duro de roer\u201d, \u201cque a obra vai sempre \u00e0 frente e o aluno tem de ir atr\u00e1s para crescer\u201d. Retirar obras complexas pela dificuldade de interpreta\u00e7\u00e3o significaria empobrecer a forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos alunos. Os professores sugerem ainda outros autores que consideram relevantes como Valter Hugo M\u00e3e e Ant\u00f3nio Lobo Antunes.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante as cr\u00edticas suscitadas, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o Fernando Alexandre afirmou que a altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o resulta de crit\u00e9rios ideol\u00f3gicos, mas de um processo de revis\u00e3o curricular ainda em discuss\u00e3o, sublinhando que qualquer decis\u00e3o final apenas produzir\u00e1 efeitos a partir do ano letivo 2027\/2028.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta a esta proposta, cerca de trinta escritores, professores, editores e agentes culturais subscreveram uma carta aberta dirigida ao ministro da Educa\u00e7\u00e3o, defendendo a manuten\u00e7\u00e3o da obrigatoriedade da leitura de Jos\u00e9 Saramago no ensino secund\u00e1rio. Entre os signat\u00e1rios encontram-se a escritora L\u00eddia Jorge, o escritor Jo\u00e3o Tordo, o encenador Tiago Rodrigues e o professor universit\u00e1rio Carlos Reis. Na carta, os subscritores alertam que \u201cum aluno pode concluir o 12.\u00ba ano sem nunca estudar Jos\u00e9 Saramago\u201d e argumentam que \u201cum curr\u00edculo nacional n\u00e3o pode deixar uma refer\u00eancia desta dimens\u00e3o dependente de interpreta\u00e7\u00f5es, de contextos ou de boa vontade de cada op\u00e7\u00e3o local\u201d, considerando que o autor ocupa \u201cum lugar singular\u201d na literatura portuguesa e que a sua exclus\u00e3o da lista de leituras obrigat\u00f3rias representa uma perda cultural significativa para a forma\u00e7\u00e3o dos alunos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLisboa est\u00e1 cheia de medo, mas finge que n\u00e3o, as pessoas baixam a voz quando falam, olham para os lados<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":22100,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15,1,11],"tags":[372,3103,251],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22020"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22020"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22215,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22020\/revisions\/22215"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22100"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}