{"id":22014,"date":"2026-06-23T09:39:38","date_gmt":"2026-06-23T09:39:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22014"},"modified":"2026-06-23T09:39:40","modified_gmt":"2026-06-23T09:39:40","slug":"entre-brasas-e-memorias-a-tradicao-que-recusa-o-esquecimento-em-santo-andre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22014","title":{"rendered":"Entre brasas e mem\u00f3rias: a tradi\u00e7\u00e3o que recusa o esquecimento em Santo Andr\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Ao fim da tarde, o Largo do Outeiro come\u00e7a a ganhar vida. As mesas de madeira s\u00e3o postas ao sol, os grelhadores come\u00e7am lentamente a aquecer, e o cheiro a sardinha assada vai preenchendo o ar, anunciando que Santo Andr\u00e9, no concelho de Mangualde, vai ser, por um dia, a aldeia que outrora fora, enchendo-se de gente. Este ano, a sardinhada realiza-se a 20 de junho, e vai servir de ponto de encontro para quem vive, e para quem, apesar da dist\u00e2ncia continua a considerar o lugar, casa. Chegam carros que h\u00e1 muito n\u00e3o se viam. S\u00e3o pessoas que partiram, mas que regressam neste dia, porque h\u00e1 algo que ainda as liga \u00e0 aldeia. Criada quase por acaso h\u00e1 seis anos, tornou-se o principal momento de encontro de uma comunidade. Apesar de ser uma tradi\u00e7\u00e3o relativamente recente, carrega consigo um grande significado: juntar pessoas, preservar mem\u00f3rias e manter viva a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Andreia Figueira <\/strong>(aluna do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<h4>Entre a calma e o sil\u00eancio<\/h4>\n\n\n\n<p>Durante o resto do ano, o ritmo da vida \u00e9 muito diferente em Santo Andr\u00e9. Gra\u00e7a Lopes, habitante desde sempre, descreve o quotidiano como tranquilo. Viver ali, \u00e9, para ela, viver \u201ccom tranquilidade, calma e sem stress\u201d. No entanto, reconhece que essa calma vem acompanhada de um certo vazio e sil\u00eancio. As crian\u00e7as nas ruas s\u00e3o cada vez menos e isso faz-se sentir. \u201cFazem falta crian\u00e7as, acho que h\u00e1 poucas\u201d, admite. Ainda assim recusa a ideia de que a aldeia est\u00e1 condenada a cair no esquecimento, pelo contr\u00e1rio, acredita que o futuro pode ser positivo, porque h\u00e1 \u201cmuitas pessoas a virem para c\u00e1\u201d e porque Santo Andr\u00e9 teve sempre \u201cmuita fama e muita cultura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h4>A tradi\u00e7\u00e3o que nasceu de uma pequena ideia<\/h4>\n\n\n\n<p>A sardinhada nasceu de forma simples, durante um jantar entre amigos. Nuno Figueira, um dos organizadores, recorda que uma vez que \u201co pessoal se via poucas vezes\u201d, talvez uma sardinhada fosse capaz de juntar aquilo que a dist\u00e2ncia separou. Ent\u00e3o, nesse ano, organizou-se pela primeira vez este ponto de encontro, e as pessoas aderiram. Com o passar dos anos o evento foi crescendo, e transformou-se no momento em que a aldeia mais ganha vida. A organiza\u00e7\u00e3o exige trabalho e dedica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 reuni\u00f5es, listas de tarefas e coordena\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de grupos de WhatsApp. Apesar do esfor\u00e7o a vontade de continuar mant\u00e9m-se, e, no final, o sentimento que fica \u00e9 de orgulho. \u201cSentimo-nos orgulhosos de ter feito a sardinhada\u201d, diz Nuno Figueira.<\/p>\n\n\n\n<h4>Quem parte tamb\u00e9m pertence<\/h4>\n\n\n\n<p>Para quem vive longe, este encontro anual tem um significado ainda mais profundo. Jos\u00e9 Sousa, vive atualmente em Lisboa, mas regressa todos os anos, porque Santo Andr\u00e9 continua a representar uma parte importante da sua hist\u00f3ria. \u00c9, como descreve, um local que lhe traz muitas recorda\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia, de casa, de onde tem ra\u00edzes. Apesar de nunca ter vivido permanentemente na aldeia, procura transmitir essa liga\u00e7\u00e3o aos filhos. \u201cQuero que os meus filhos percebam que ali tamb\u00e9m t\u00eam uma parte deles\u201d. Ao mesmo tempo, reconhece algumas mudan\u00e7as que a aldeia sofreu ao longo dos anos. Hoje v\u00ea \u201cmenos gente, pessoas mais envelhecidas e uma realidade um bocadinho mais deserta\u201d. \u00c9 precisamente por isso que considera a sardinhada t\u00e3o importante. Para ele, \u201ceste encontro ajuda a aldeia a n\u00e3o cair no esquecimento\u201d, e fortalece la\u00e7os, que, sem momentos como este, acabariam por se perder. Destaca ainda o esp\u00edrito de entreajuda que sente sempre que regressa. \u201cExiste ali um sentimento de solidariedade\u2026\u00e9 muito bom\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h4>Enquanto houver v\u00ednculo, h\u00e1 raz\u00e3o para voltar<\/h4>\n\n\n\n<p>Enquanto as sardinhas estalam nos grelhadores e o largo se enche de vozes, percebe-se o significado dessas palavras. H\u00e1 abra\u00e7os de quem n\u00e3o se v\u00ea h\u00e1 anos, conversas interrompidas apenas pelo passar do tempo, crian\u00e7as a correrem entre as mesas, e idosos que observam toda a agita\u00e7\u00e3o com um sorriso no rosto. Durante algumas horas, Santo Andr\u00e9 volta a ser a aldeia de outros tempos. A sardinhada n\u00e3o resolve problemas como o despovoamento. N\u00e3o traz de volta as escolas, e n\u00e3o traz de volta as crian\u00e7as durante o resto do ano, mas oferece algo igualmente importante, um sentimento de perten\u00e7a. E enquanto esse sentimento existir, haver\u00e1 sempre raz\u00f5es para se voltar. A aldeia vive hoje<del>,<\/del> entre a tranquilidade dos dias comuns<del>,<\/del> e a energia destes encontros anuais, entre quem ficou e quem partiu, entre a mem\u00f3ria e o presente. Talvez a sardinhada n\u00e3o consiga mudar o futuro de Santo Andr\u00e9, mas ajuda, pelo menos, a garantir que a sua hist\u00f3ria continuar\u00e1 a ser contada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sardinhada de Santo Andr\u00e9 re\u00fane habitantes e emigrantes num dia de conv\u00edvio que ajuda a preservar mem\u00f3rias, fortalecer la\u00e7os comunit\u00e1rios e manter viva a identidade da aldeia.<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":22055,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,462,11],"tags":[162,5235,1765,844],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22014"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22014"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22014\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22156,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22014\/revisions\/22156"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}