{"id":22007,"date":"2026-06-23T09:25:17","date_gmt":"2026-06-23T09:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22007"},"modified":"2026-06-23T09:25:18","modified_gmt":"2026-06-23T09:25:18","slug":"diabetes-a-doenca-invisivel-que-causa-cansaco-mental-e-emocional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22007","title":{"rendered":"Diabetes, a doen\u00e7a invis\u00edvel que causa &#8220;cansa\u00e7o mental e emocional&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>\u201cN\u00e3o devias ter comido tanto a\u00e7\u00facar!\u201d; \u201cMas tu podes comer isso?\u201d; \u201cEsse bolo ainda te vai dar diabetes!\u201d. &nbsp;\u00c9 quase imposs\u00edvel qualquer diab\u00e9tico nunca ter ouvido frases deste g\u00e9nero, mas elas n\u00e3o v\u00eam de um lugar de mal\u00edcia, sendo apenas o resultado de anos e anos de desinforma\u00e7\u00e3o relativamente a esta doen\u00e7a<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Beatriz Tavares<\/strong> (aluna do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>Diabetes tipo 1, tipo 2, gestacional \u2013 s\u00e3o v\u00e1rios os tipos de diabetes que afetam milh\u00f5es de&nbsp;pessoas &nbsp;em&nbsp;todo o mundo, de formas e com causas diferentes, mas, no entanto, \u00e9 sempre reduzida ao \u201cconsumo de demasiado a\u00e7\u00facar\u201d, o que acaba por ser uma pr\u00e1tica inocente com um impacto real e muitas vezes negativo na vida dos portadores desta doen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que,&nbsp;independentemente do tipo de diabetes em quest\u00e3o, trata-se de uma doen\u00e7a invis\u00edvel. Apesar dos dispositivos m\u00e9dicos utilizados por v\u00e1rios doentes, \u00e9 imposs\u00edvel assumir o diagn\u00f3stico de algu\u00e9m a olho nu, mas n\u00e3o \u00e9 por isso que deixa de ser um&nbsp;\u201cbicho de sete cabe\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para&nbsp;uma jovem de 20 anos, a diabetes \u00e9 \u201c<em>um cuidado extra que as pessoas t\u00eam de ter\u201d<\/em>, enquanto um jovem de dezanove anos diz que, para ele, a diabetes \u00e9 \u201c<em>demasiado a\u00e7\u00facar no sangue, criando um problema\u201d<\/em>. N\u00e3o \u00e9 mentira, mas s\u00f3 vem comprovar que o conhecimento geral da sociedade sobre esta doen\u00e7a \u00e9 muito superficial relativamente a outro tipo de doen\u00e7as cr\u00f3nicas \u2013 s\u00f3 porque \u00e9 uma doen\u00e7a invis\u00edvel n\u00e3o significa que n\u00e3o&nbsp;seja &nbsp;complexa, que requer dignidade e respeito por parte de todos. Ao abrir uma caixa de coment\u00e1rios em qualquer rede social n\u00e3o se v\u00ea piadas com cancro ou at\u00e9 mesmo como uma simples gripe, mas \u00e9 comum vermos, em publica\u00e7\u00f5es sobre comida, brincadeiras que dizem que ingerir aquele alimento vai \u201cdar diabetes\u201d a algu\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a inven\u00e7\u00e3o da insulina em&nbsp;1921, os avan\u00e7os m\u00e9dicos e tecnol\u00f3gicos no ramo da endocrinologia ainda n\u00e3o pararam de evoluir.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Tavares foi diagnosticado com diabetes tipo 1 h\u00e1 mais de trinta e cinco anos, podendo sentir esta evolu\u00e7\u00e3o na primeira pessoa. Ele relembra um epis\u00f3dio, h\u00e1 mais ou menos vinte anos, em que estava a conduzir com uma quebra de a\u00e7\u00facar, sem saber disso. \u201c<em>Fui a conduzir para uma festa, com uma quebra de a\u00e7\u00facar, eu n\u00e3o sabia, e subi o passeio com o carro &#8211; s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis que um diab\u00e9tico n\u00e3o controla<\/em><s>.<\/s>\u201d, conta.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma quebra de a\u00e7\u00facar define-se por baixos n\u00edveis de a\u00e7\u00facar no sangue, causando tremores, calafrios, tonturas e fraquezas, n\u00e3o sendo muito seguro conduzir durante estes epis\u00f3dios. Contudo, atualmente \u00e9 mais f\u00e1cil evitar este tipo de situa\u00e7\u00f5es, devido aos v\u00e1rios avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos:&nbsp;<em>\u201choje em dia existe acesso&nbsp;\u00e0&nbsp;tecnologia de monotoriza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da glicose, que permite rapidamente, em tempo real, ver como est\u00e1 o estado da glicose e reagirmos antes de qualquer situa\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, diz Manuel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados do Relat\u00f3rio Anual do Observat\u00f3rio da Diabetes, cerca de um milh\u00e3o de portugueses s\u00e3o portadores desta doen\u00e7a. Todos t\u00eam a sorte de ter os seus recursos m\u00e9dicos comparticipados pelo Estado, o que facilita muito a vida de um diab\u00e9tico em Portugal. A diabetes \u00e9 uma doen\u00e7a que pode aparecer a qualquer um, em qualquer fase da vida, independentemente das condi\u00e7\u00f5es financeiras de cada um, por isso podemos considerar-nos&nbsp;afortunados em ter um acesso t\u00e3o facilitado a medica\u00e7\u00e3o e dispositivos m\u00e9dicos, pois, por este mundo fora, h\u00e1 algu\u00e9m que teve o infeliz azar de ter nascido com a predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para a diabetes, num pa\u00eds que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simp\u00e1tico para os doentes.&nbsp;Ella&nbsp;Suvak&nbsp;tem vinte anos e \u00e9 natural de Charleston, nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, e admite a sua sorte em ter o apoio do seguro de sa\u00fade da sua fam\u00edlia, pois, sem ele, a sua vida seria bem mais dif\u00edcil: \u201c<em>Tenho imensa sorte em ter o seguro dos meus pais, temos um seguro bastante bom e eles basicamente cobrem tudo, tenho mesmo muita sorte nesse aspeto\u201d.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a diabetes n\u00e3o deixa de ser complexa s\u00f3 porque a parte financeira n\u00e3o \u00e9 um problema. Afinal, estamos a falar de uma doen\u00e7a autoimune que ataca as c\u00e9lulas produtoras de insulina, o que quer aten\u00e7\u00e3o por parte do utente diariamente.&nbsp;Existem, no entanto, v\u00e1rias complica\u00e7\u00f5es adjacentes a um mau controlo da diabetes, que nem sempre s\u00e3o o resultado de despreocupa\u00e7\u00e3o para com a doen\u00e7a. A sa\u00fade mental \u00e9 um dos fatores que pode contribuir para um desleixo por parte do utente.&nbsp;Ella&nbsp;Suvak&nbsp;relembra momentos da sua vida em que a exaust\u00e3o relativamente ao controlo da doen\u00e7a era tanta, (ou seja, a despreocupa\u00e7\u00e3o com a aplica\u00e7\u00e3o de insulina aumentava) que ela preferiu passar v\u00e1rios dias seguidos a ingerir poucos alimentos, para, consequentemente, n\u00e3o ter de se preocupar com as doses administradas, do que ter de lidar diretamente com a exaust\u00e3o. \u201c<em>Para mim, o cansa\u00e7o \u00e9 a n\u00edvel mental e emocional\u201d<\/em>, partilha&nbsp;Ella, pois&nbsp;\u201c<em>a coisa da qual os diab\u00e9ticos mais se querem ver livres \u00e9 o peso de ter de constantemente gerir a sua glicemia.\u201d<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>No in\u00edcio achei que a diabetes era muita limitativa\u201d<\/em>, diz Manuel Tavares, ao relembrar a falta de bens alimentares baixos em a\u00e7\u00facar no in\u00edcio dos anos noventa e os pre\u00e7os elevados dos que existiam \u201c<em>Vim de uma fam\u00edlia muito humilde, era dif\u00edcil arranjar estes produtos.\u201d&nbsp;<\/em>Al\u00e9m disso, na altura havia um grande estigma de que diab\u00e9ticos n\u00e3o podiam comer nada com a\u00e7\u00facar ou at\u00e9 mesmo consumir qualquer tipo de \u00e1lcool: \u201c<em>Bloqueei, e durante anos deixei de sair e de comer com os meus amigos, e em festas de anivers\u00e1rio, Natal, P\u00e1scoa, e passagem de ano n\u00e3o tocava em absolutamente nenhum doce, ficava simplesmente a ver\u201d<\/em>. Ao recordar estes momentos, Manuel refere que isto mexia com ele por dentro, apesar de&nbsp;<em>\u201cfingir que estava tudo bem\u201d<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que est\u00e1 a diferen\u00e7a entre duas gera\u00e7\u00f5es de diab\u00e9ticos. H\u00e1 trinta anos era muito dif\u00edcil gerir a doen\u00e7a devido \u00e0 falta de recursos tecnol\u00f3gicos e a resposta por parte dos profissionais de sa\u00fade era restringir as pessoas, fazendo-as sentir-se postas de parte em momentos de conv\u00edvio \u00e0 volta da mesa. Em contrapartida, na atualidade h\u00e1 &nbsp;v\u00e1rios recursos, sejam eles bombas de insulina ou sensores que medem a glicose continuamente, que o controlo da doen\u00e7a se torna algo mais f\u00e1cil, no entanto \u00e9 comum o doente sentir este tipo de&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;diab\u00e9tico devido ao papel que s\u00e3o for\u00e7ados a assumir em prol de uma boa qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A diabetes \u00e9 uma doen\u00e7a muito complexa, com v\u00e1rios \u00e2ngulos e hist\u00f3rias para contar. \u00c9 urgente educar a popula\u00e7\u00e3o para que todos sejamos mais conscientes sobre esta doen\u00e7a, pois, no caso da diabetes tipo 1, o utente n\u00e3o tem qualquer tipo de culpa no que toca ao seu diagn\u00f3stico. N\u00e3o h\u00e1 cura, milagres nem preven\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 como negar o convite sorrateiro da diabetes, que chega \u00e0 vida de cada um de forma lenta, sintoma a sintoma, enquanto o mundo \u00e0 volta continua a sorrir levemente.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o devias ter comido tanto a\u00e7\u00facar!\u201d; \u201cMas tu podes comer isso?\u201d; \u201cEsse bolo ainda te vai dar diabetes!\u201d. &nbsp;\u00c9 quase<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":22044,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,11],"tags":[1598,39],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22007"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22007"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22007\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22153,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22007\/revisions\/22153"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22044"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}