{"id":22003,"date":"2026-06-23T09:01:03","date_gmt":"2026-06-23T09:01:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22003"},"modified":"2026-06-23T09:01:05","modified_gmt":"2026-06-23T09:01:05","slug":"nao-e-moda-e-saude-o-impacto-da-doenca-celiaca-na-vida-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22003","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 moda, \u00e9 sa\u00fade: o impacto da doen\u00e7a cel\u00edaca na vida social"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Entre o diagn\u00f3stico, o medo da contamina\u00e7\u00e3o e a falta de informa\u00e7\u00e3o, viver com doen\u00e7a cel\u00edaca implica muito mais do que retirar o gl\u00faten do prato: exige adaptar rotinas, rela\u00e7\u00f5es e momentos de conv\u00edvio<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p>Por: Eva Reis (aluna do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>Foto: Imagem gerada por IA<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz Calado&nbsp;estava no per\u00edodo da adolesc\u00eancia&nbsp;quando ouviu pela primeira vez o diagn\u00f3stico que viria a alterar a sua rela\u00e7\u00e3o com a comida, com os espa\u00e7os de conv\u00edvio e at\u00e9 com a forma de sair de casa. At\u00e9 ent\u00e3o, entrava em caf\u00e9s e restaurantes sem pensar duas vezes. Depois, passou a ler r\u00f3tulos durante horas, a procurar informa\u00e7\u00e3o na internet e a medir cada refei\u00e7\u00e3o pelo risco de contacto com gl\u00faten. O primeiro impacto \u201cfoi duvidoso e dif\u00edcil\u201d, recorda. De um dia para o outro, a alimenta\u00e7\u00e3o deixou de ser um gesto autom\u00e1tico e passou a exigir vigil\u00e2ncia permanente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Beatriz serve de entrada para uma realidade que muitas vezes fica escondida por detr\u00e1s da express\u00e3o \u201cdieta sem gl\u00faten\u201d. Para quem tem doen\u00e7a cel\u00edaca, excluir o gl\u00faten n\u00e3o \u00e9 uma prefer\u00eancia alimentar nem uma&nbsp;moda,&nbsp;&nbsp;\u00e9&nbsp;uma necessidade de sa\u00fade. No primeiro ano ap\u00f3s o diagn\u00f3stico, evitou restaurantes, caf\u00e9s e outros estabelecimentos, n\u00e3o apenas por falta de op\u00e7\u00f5es, mas pelo receio da contamina\u00e7\u00e3o cruzada. O que antes parecia simples,&nbsp;comer fora, viajar, ir a uma festa,&nbsp;passou a implicar perguntas, pesquisas e aten\u00e7\u00e3o constante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O problema, explica, n\u00e3o est\u00e1 apenas nos alimentos que cont\u00eam gl\u00faten, mas tamb\u00e9m nos utens\u00edlios, superf\u00edcies e prepara\u00e7\u00f5es que podem entrar em contacto com ele.&nbsp;A&nbsp;&nbsp;Associa\u00e7\u00e3o&nbsp;Portuguesa de Cel\u00edacos&nbsp;(APC)&nbsp;alerta que o contacto cruzado pode tornar perigoso um alimento que, \u00e0 partida, seria seguro, mesmo quando a quantidade de gl\u00faten \u00e9 muito pequena. Por isso,&nbsp;a&nbsp;jovem&nbsp;identifica a contamina\u00e7\u00e3o como o maior desafio do seu dia a dia, tanto fora de casa como em casas de pessoas pr\u00f3ximas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas rela\u00e7\u00f5es sociais, a doen\u00e7a torna-se ainda mais vis\u00edvel.&nbsp;A entrevistada&nbsp;admite que j\u00e1 se sentiu incompreendida porque h\u00e1 quem continue a associar a exclus\u00e3o do gl\u00faten a uma escolha pessoal,&nbsp;\u201cexclu\u00edmos por necessidade, n\u00e3o por op\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. A frase resume uma das dificuldades repetidas pelos entrevistados,&nbsp;a falta de conhecimento transforma uma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica numa realidade que precisa de ser constantemente justificada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Calhas, companheiro de Beatriz, tamb\u00e9m teve de aprender essa vigil\u00e2ncia. Quando soube que ela era cel\u00edaca, sentiu-se assustado por desconhecer a doen\u00e7a e o que esta provocava no corpo. Hoje, diz que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou de forma dr\u00e1stica, mas exige cuidados,&nbsp;nos restaurantes, procura confirmar se a refei\u00e7\u00e3o \u00e9 segura e se n\u00e3o h\u00e1 risco de contamina\u00e7\u00e3o. Recorda ainda uma festa de anivers\u00e1rio em que&nbsp;a companheira&nbsp;n\u00e3o tinha comida sem gl\u00faten dispon\u00edvel nem garantias de seguran\u00e7a alimentar. Um momento de conv\u00edvio transformou-se, assim, numa experi\u00eancia de exclus\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Santana vive a doen\u00e7a de outra forma, diagnosticado ainda em beb\u00e9, n\u00e3o guarda mem\u00f3ria de uma vida antes da&nbsp;doen\u00e7a cel\u00edaca. Para ele, crescer sem gl\u00faten foi sempre o normal. \u201cN\u00e3o mudou nada\u201d, diz, explicando que a dieta j\u00e1 faz parte da sua rotina. O contraste com Beatriz mostra como o momento do diagn\u00f3stico muda a experi\u00eancia,&nbsp;enquanto ela teve&nbsp;de reaprender h\u00e1bitos na juventude, Jo\u00e3o aprendeu desde cedo a procurar alternativas e a olhar para a alimenta\u00e7\u00e3o como uma adapta\u00e7\u00e3o natural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa naturalidade n\u00e3o significa aus\u00eancia de desafios. Jo\u00e3o reconhece que festas de anivers\u00e1rio podem marcar alguma diferen\u00e7a, sobretudo na inf\u00e2ncia, e que as viagens continuam a exigir planeamento, dependendo do pa\u00eds ou do lugar, encontrar alimenta\u00e7\u00e3o segura pode tornar-se mais dif\u00edcil.&nbsp;Ainda assim, n\u00e3o descreve a doen\u00e7a como um limite, pois viver sem gl\u00faten significa comer de outra forma, recorrer a alternativas e beneficiar da maior variedade que hoje existe nos supermercados. No futuro, gostava de ver ainda mais op\u00e7\u00f5es e pre\u00e7os mais acess\u00edveis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As lembran\u00e7as&nbsp;de Alexandra Gameiro, m\u00e3e de Jo\u00e3o, ajudam&nbsp;a perceber o que ficou antes dessa normalidade. H\u00e1 cerca de 19 anos, quando recebeu o diagn\u00f3stico do filho, sentiu \u201cum misto de emo\u00e7\u00f5es\u201d, mas tamb\u00e9m o fim de uma fase de desconhecimento. A frase do m\u00e9dico ficou-lhe&nbsp;gravada&nbsp;,&nbsp;era \u201ca melhor das piores doen\u00e7as\u201d, a&nbsp;partir da\u00ed, toda a din\u00e2mica familiar mudou, os conv\u00edvios, as festas, as tradi\u00e7\u00f5es e a cozinha da casa tiveram de ser repensados para que a dieta fosse segura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na altura, recorda Alexandra, havia menos informa\u00e7\u00e3o, menos produtos equivalentes e menos prepara\u00e7\u00e3o social.&nbsp;A fam\u00edlia teve de estudar, experimentar e mudar rotinas alimentares,&nbsp;dessa adapta\u00e7\u00e3o nasceu tamb\u00e9m o livro \u201c100% Sem Gl\u00faten\u201d, escrito para ajudar outras pessoas a encontrar receitas e solu\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22027\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558-300x169.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558-768x432.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/PHOTO-2026-06-15-17-17-37-e1782204123558.jpg 1599w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Hoje, reconhece progressos nas escolas, nos supermercados e em alguns restaurantes, mas defende que ainda falta forma\u00e7\u00e3o, por exemplo, as ementas de restaurantes e cantinas deviam identificar claramente os alerg\u00e9nios, e os trabalhadores deviam conhecer melhor temas como gl\u00faten, lactose e contamina\u00e7\u00e3o cruzada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre Beatriz, Jo\u00e3o e Alexandra, a doen\u00e7a cel\u00edaca surge como uma realidade feita de tempos diferentes,&nbsp;o choque de quem descobre tarde, a normalidade de quem cresce com ela e o esfor\u00e7o de uma fam\u00edlia que teve de aprender quando quase n\u00e3o havia respostas. A legisla\u00e7\u00e3o portuguesa j\u00e1 prev\u00ea informa\u00e7\u00e3o sobre alerg\u00e9nios, incluindo cereais com gl\u00faten, mas os testemunhos mostram que as regras s\u00f3 fazem diferen\u00e7a quando s\u00e3o compreendidas e aplicadas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Viver sem gl\u00faten \u00e9 planear, perguntar e confiar que os outros sabem o que est\u00e1 em causa. Para quem tem esta condi\u00e7\u00e3o, uma migalha n\u00e3o \u00e9 um detalhe,&nbsp;pode ser a diferen\u00e7a entre participar com seguran\u00e7a ou ficar de fora.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A doen\u00e7a cel\u00edaca vai muito al\u00e9m da exclus\u00e3o do gl\u00faten da alimenta\u00e7\u00e3o. Para milhares de pessoas, o diagn\u00f3stico implica mudan\u00e7as profundas nas rotinas, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e na forma de frequentar restaurantes, viajar ou participar em eventos. A hist\u00f3ria de Beatriz Calado revela os desafios di\u00e1rios de viver com uma condi\u00e7\u00e3o que exige vigil\u00e2ncia constante e maior informa\u00e7\u00e3o por parte da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":22148,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[5213,271,39],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22003"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22003"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22149,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22003\/revisions\/22149"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}