{"id":21639,"date":"2026-01-29T10:29:07","date_gmt":"2026-01-29T10:29:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21639"},"modified":"2026-01-29T10:29:08","modified_gmt":"2026-01-29T10:29:08","slug":"o-bailarino-quando-a-danca-e-mais-do-que-espetaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21639","title":{"rendered":"O Bailarino: quando a dan\u00e7a \u00e9 mais do que espet\u00e1culo"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Na sala onde a m\u00fasica dita o ritmo das tardes, os corpos alinham-se sem pressa. H\u00e1 passos que falham, risos que interrompem a contagem e pausas que servem para respirar. N\u00e3o \u00e9 apenas uma aula de dan\u00e7a, \u00e9 um espa\u00e7o de encontro. Em Amarante, \u00e9 aqui que um projeto jovem come\u00e7a a ganhar forma e significado. Mais do que ensinar coreografias, as aulas tornam-se momentos de escuta, partilha e constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de: Maria Eduarda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Num concelho onde a oferta cultural chega de forma desigual, um jovem professor criou um projeto que come\u00e7a a mudar rotinas, corpos e formas de estar, longe dos grandes palcos mas perto das pessoas. Num territ\u00f3rio marcado pela dist\u00e2ncia aos grandes centros urbanos, iniciativas como esta assumem um papel fundamental no acesso \u00e0 cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Varej\u00e3o tem 20 anos, \u00e9 professor de dan\u00e7a e fundador de um projeto comunit\u00e1rio que nasceu h\u00e1 cerca de um ano. Num territ\u00f3rio pequeno, onde a oferta cultural \u00e9 vasta mas nem sempre chega a todos, decidiu criar um espa\u00e7o onde a dan\u00e7a pudesse ser acess\u00edvel, inclusiva e vivida sem press\u00e3o. A iniciativa surgiu da vontade de criar alternativas culturais regulares e acess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local, respondendo a necessidades que s\u00e3o mais ouvidas por quem est\u00e1 mais pr\u00f3ximo das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"576\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F-576x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21658\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F-576x1024.jpeg 576w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F-169x300.jpeg 169w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F-768x1365.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F-864x1536.jpeg 864w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/1ECED0C2-F684-45E2-BAB9-E26DE52C8D5F.jpeg 900w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption>Daniel Varej\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Amarante come\u00e7a a mudar a forma como olha para a dan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de fazer parte da vida de muitas pessoas, a dan\u00e7a continua a ser vista, em alguns contextos, como algo secund\u00e1rio. Criar um projeto nesta \u00e1rea, sobretudo for a dos grandes centros urbanos, implica enfrentar preconceitos e limita\u00e7\u00f5es estruturais. A escassez de apoios financeiros e institucionais representam um dos principais obst\u00e1culos \u00e0 continuidade de projetos culturais independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Daniel Varej\u00e3o, o maior desafio passa por contrariar a ideia de que a dan\u00e7a \u00e9 apenas um passatempo ou uma atividade pouco relevante . O projeto procura afirmar-se como um espa\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o cultural, onde o corpo tamb\u00e9m \u00e9 um grande instrumento de aprendizagem e desenvolvimento pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA maior dificuldade foi chamar pessoas\u201d, refere Daniel Varej\u00e3o, professor de dan\u00e7a e criador deste projeto. \u201cAmarante \u00e9 pequena e j\u00e1 existe alguma oferta\u201d. Ainda assim, o projeto cresceu de forma consistente, muito por recomenda\u00e7\u00e3o direta, mas, segundo Daniel Varej\u00e3o, quem entra acaba por ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>A liga\u00e7\u00e3o do professor \u00e0 dan\u00e7a vem de cedo. Cresceu rodeado de m\u00fasica e conv\u00edvios e percebeu logo que queria seguir este caminho. A decis\u00e3o de transformar essa paix\u00e3o num projeto pr\u00f3prio surgiu no final de 2024, ap\u00f3s integrar uma associa\u00e7\u00e3o local e ser incentivado a criar algo com identidade pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do percurso pessoal ao compromisso com a comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto come\u00e7ou a estruturar-se com um objetivo claro: levar a dan\u00e7a \u00e0 comunidade de Amarante de forma acess\u00edvel. Mais do que formar bailarinos, Daniel Varej\u00e3o queria criar um espa\u00e7o onde crian\u00e7as, jovens e adultos pudessem sentir-se bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros meses foram marcados por dificuldades como falta de espa\u00e7o, poucos meios e muita incerteza. Ainda assim, o envolvimento dos alunos tornou-se o principal motor de continuidade, criando uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade entre professor e alunos. Essa rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente seguro, onde o erro faz parte do processo de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa liga\u00e7\u00e3o acabou tamb\u00e9m por refor\u00e7ar o sentido de compromisso com a comunidade e fez com que o projeto deixasse de ser apenas uma iniciativa individual para se tornar um espa\u00e7o onde cada pessoa tem o seu papel e se sente parte de uma grande fam\u00edlia. A no\u00e7\u00e3o de perten\u00e7a surge como um dos principais fatores de motiva\u00e7\u00e3o para a perman\u00eancia dos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando a dan\u00e7a come\u00e7a a ter impacto real<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre os mais pequenos, os resultados s\u00e3o vis\u00edveis. Daniel Varej\u00e3o recorda uma crian\u00e7a da turma dos mais novos que, no in\u00edcio, apresentava dificuldades motoras significativas mas com o tempo e a cria\u00e7\u00e3o de rotinas, a evolu\u00e7\u00e3o tornou-se evidente. A observa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do progresso dos alunos permite ajustar os m\u00e9todos e refor\u00e7ar a import\u00e2ncia destas aulas para o quotidiano das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este tipo de acompanhamento cont\u00ednuo permite criar rotinas saud\u00e1veis e estimular capacidades que v\u00e3o al\u00e9m da sala de aula, refletindo-se no comportamento, na autonomia e na auto-estima dos alunos, principalmente os mais novos.<\/p>\n\n\n\n<p>Este progresso n\u00e3o se reflete apenas a n\u00edvel f\u00edsico, mas tamb\u00e9m na confian\u00e7a e na forma como a crian\u00e7a passou a encarar os desafios. Para Daniel Varej\u00e3o, \u201ceste tipo de evolu\u00e7\u00e3o demonstra o verdadeiro impacto da dan\u00e7a\u201d, mostrando que o trabalho desenvolvido nas aulas pode contribuir de forma concreta para o desenvolvimento pessoal e para a melhoria da qualidade de vida dos alunos. O desenvolvimento emocional dos alunos ajuda as fam\u00edlias a valorizarem o trabalho do professor e a dan\u00e7a como mecanismo de confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o impacto da dan\u00e7a n\u00e3o se limita \u00e0s crian\u00e7as. A influ\u00eancia do projeto estende-se a jovens e adultos, que encontram nas aulas um espa\u00e7o de bem-estar, refor\u00e7ando a ideia de que a dan\u00e7a pode ter um papel transformador. Para muitos, as aulas representam uma pausa necess\u00e1ria num quotidiano marcado pelo stress e pela press\u00e3o do dia-a-dia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"576\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9-576x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21659\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9-576x1024.jpeg 576w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9-169x300.jpeg 169w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9-768x1365.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9-864x1536.jpeg 864w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/E9FD187E-41A9-4374-B5E3-D05B88029FA9.jpeg 1082w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Uma aluna, um grupo, um lugar seguro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Rute de 13 anos, frequenta as aulas desde o in\u00edcio. Chegou com curiosidade, mas ficou pelo ambiente, \u201cquando estou a dan\u00e7ar, sinto-me bem e esque\u00e7o os problemas da escola e o stress\u201d, refere Rute. A experi\u00eancia da jovem reflete a import\u00e2ncia da dan\u00e7a como ferramenta de gest\u00e3o emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a jovem aluna, a dan\u00e7a tornou-se uma forma de express\u00e3o emocional. \u201cSou uma pessoa reservada e quando dan\u00e7o consigo mostrar sentimentos que n\u00e3o consigo explicar\u201d, e o grupo segundo Rute, funciona como uma fam\u00edlia. Para Rute, projetos como este ajudam a valorizar Amarante, mesmo que nem todos reconhe\u00e7am isso.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fam\u00edlias que acompanham o percurso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O impacto do projeto \u00e9 tamb\u00e9m sentido pelas fam\u00edlias. Olga, bombeira de 38 anos, foi uma das primeiras a inscrever-se, juntamente com a filha e a m\u00e3e. Desde ent\u00e3o, nota mudan\u00e7as claras. A participa\u00e7\u00e3o de todos refor\u00e7a os la\u00e7os familiares e cria momentos de partilha for a do contexto dom\u00e9stico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMais concentra\u00e7\u00e3o, mais leveza, mais vontade\u201d, enumera Olga, para ela as aulas representam uma pausa no quotidiano, pois segundo ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dan\u00e7ar, \u00e9 ter uma hora de tranquilidade. Apesar disso, Olga aponta a falta de acompanhamento institucional a este tipo de iniciativas culturais, considerando que projetos como este deveriam ser mais apoiados e valorizados pelo munic\u00edpio, tendo em conta o impacto positivo que t\u00eam na vida das pessoas e na comunidade. A dan\u00e7a surge, assim, como uma forma de auto cuidado acess\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Levar a danca para al\u00e9m do centro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, o projeto come\u00e7ou a chegar a outras freguesias do concelho. A descentraliza\u00e7\u00e3o das atividades permite alcan\u00e7ar p\u00fablicos que, de outra forma, ficariam exclu\u00eddos da oferta cultural. Atrav\u00e9s de parcerias, Daniel Varej\u00e3o tem conseguido levar aulas e atividades a zonas onde o acesso \u00e0 oferta cultural \u00e9 mais limitado. Um trabalho particularmente relevante num concelho como Amarante, onde nem todas as pessoas t\u00eam facilidade em deslocar-se at\u00e9 ao centro da cidade. Desta forma, o projeto contribui para o acesso \u00e0 cultura e \u00e0 atividade f\u00edsica e leva a dan\u00e7a a p\u00fablicos que, de outra forma, ficariam afastados destas experi\u00eancias culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s destas parcerias locais, o projeto refor\u00e7a a ideia de que o acesso \u00e0 cultura n\u00e3o deve depender da localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, contribuindo para uma maior coes\u00e3o social no concelho de Amarante.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um futuro em constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Varej\u00e3o sonha com um projeto cada vez mais acess\u00edvel, capaz de garantir que crian\u00e7as, jovens e adultos possam participar sem barreiras econ\u00f3micas. Acredita que a dan\u00e7a pode ser uma ferramenta de inclus\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e bem-estar. A pergunta imp\u00f5e-se: estar\u00e1 Amarante preparada para reconhecer plenamente o valor destes projetos culturais?<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a resposta n\u00e3o chega, a mudan\u00e7a continua a acontecer todos os dias, no sil\u00eancio entre m\u00fasicas, nos corpos que ganham confian\u00e7a e numa comunidade que, passo a passo, come\u00e7a a dan\u00e7ar junta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sala onde a m\u00fasica dita o ritmo das tardes, os corpos alinham-se sem pressa. 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