{"id":21627,"date":"2026-01-28T15:36:48","date_gmt":"2026-01-28T15:36:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21627"},"modified":"2026-01-28T15:36:49","modified_gmt":"2026-01-28T15:36:49","slug":"batalha-da-visa-isto-e-uma-roda-cultural-de-improviso-e-mais-do-que-batalhar-e-cultura-aqui-faz-se-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21627","title":{"rendered":"Batalha da Visa. \u201cIsto \u00e9 uma roda cultural de improviso, \u00e9 mais do que batalhar, \u00e9 cultura, aqui faz-se arte&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><strong><em>Improviso. \u00c9 a palavra que surge no pensamento quando se ouve falar da Batalha da Visa. Nada \u00e9 escrito, nada \u00e9 ensaiado, nada se repete.<\/em><\/strong> <strong><em>\u00c0 volta, forma-se uma roda apertada de pessoas, algumas de bra\u00e7os cruzados, outras a reagir a cada punchline. No centro, dois MC\u2019s encaram-se em sil\u00eancio, at\u00e9 que a primeira rima sai, de forma espont\u00e2nea, arrancando gritos e risos do p\u00fablico. Esta \u00e9 a base da roda de batalhas de rima improvisadas, que se tem vindo a afirmar no cen\u00e1rio cultural de Viseu.<\/em><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Reportagem de Daniela Iordache<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"663\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1484-1024x663.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21630\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1484-1024x663.jpeg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1484-300x194.jpeg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1484-768x497.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1484.jpeg 1170w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Depois do primeiro verso lan\u00e7ado ao ar, a roda nunca mais volta a ficar em sil\u00eancio. As palavras sucedem-se, intensificam-se e o p\u00fablico assume um papel ativo, reagindo a cada rima bem conseguida ou a cada falha evidente. A Batalha da Visa n\u00e3o \u00e9 apenas um confronto verbal entre MC\u2019s (Master of Ceremonies): \u00e9 um ponto de encontro, um espa\u00e7o cultural e um s\u00edmbolo de resist\u00eancia art\u00edstica, numa cidade onde, durante anos, o freestyle esteve praticamente ausente. Mais do que competir, quem entra na roda partilha experi\u00eancias, aprende e contribui para a constru\u00e7\u00e3o de uma comunidade unida pela arte de improvisar, pela criatividade e pela liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O dia em que Viseu come\u00e7ou a rimar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Criado de forma informal, o projeto nasceu \u201cde uma simples brincadeira\u201d, como explica Gon\u00e7alo Magalh\u00e3es, de 19 anos, atual organizador e representante da roda: \u201c\u00edamos para Jugueiros, met\u00edamos o beat e rim\u00e1vamos durante horas, um dia percebemos que n\u00e3o havia nada disto em Viseu e decidimos come\u00e7ar,\u201d explica o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio foi modesto: poucos participantes, nenhuma estrutura definida e um p\u00fablico reduzido. Ainda assim, foi o suficiente para lan\u00e7ar as bases de um movimento que hoje se afirma como uma das maiores rodas do centro do pa\u00eds. Para Gon\u00e7alo Magalh\u00e3es, chamar o evento de \u201cbatalhas de rima\u201d n\u00e3o chega. \u201cIsto \u00e9 uma roda cultural de improviso, \u00e9 mais do que batalhar, \u00e9 cultura, aqui faz-se arte,\u201d refere.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1021\" height=\"610\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1481.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21628\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1481.jpeg 1021w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1481-300x179.jpeg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1481-768x459.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1021px) 100vw, 1021px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O crescimento da Batalha da Visa come\u00e7ou a tornar-se evidente quando MC\u2019s de fora da cidade come\u00e7aram a aparecer. A presen\u00e7a de um rapper conhecido do circuito de Coimbra, na quinta edi\u00e7\u00e3o, trouxe visibilidade e colocou Viseu no mapa do freestyle nacional. Desde ent\u00e3o, a roda tem criado liga\u00e7\u00f5es com outras cidades, participado em eventos conjuntos e levado uma bandeira simb\u00f3lica sempre que sai para representar a cidade<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Improviso como regra, n\u00e3o como op\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A boa energia \u00e9 a caracter\u00edstica principal sentida por quem entra na roda pela primeira vez. Lucas Pinto, de 19 anos, MC participante desde a 13.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, descreve a experi\u00eancia como \u201camor \u00e0 primeira vista\u201d. Apaixonado pela cultura hip-hop e influenciado pelas batalhas do Brasil, defende o improviso como pilar essencial deste movimento: \u201ctrazer rimas pensadas \u00e9 um ataque ao improviso, o que fazemos aqui tem de sair na hora,\u201d confessa o jovem. Outro aspeto que destaca \u00e9 \u201ca energia que se passa aqui, que n\u00e3o se sente em todas as rodas, aqui, nota-se que h\u00e1 paix\u00e3o pelo movimento,\u201d afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrar na roda implica, para muitos, vencer alguma inseguran\u00e7a inicial. A falta de experi\u00eancia e o ambiente ainda desconhecido, marcam o primeiro contacto com este projeto. Jo\u00e3o Covinha, de 22 anos, natural de Viana do Castelo, \u00e9 um desses exemplos. Quando come\u00e7ou a estudar em Viseu, descobriu a Batalha da Visa. \u201cNo in\u00edcio tinha receio porque n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m e nunca tinha batalhado, mas a primeira ida mudou tudo, adorei e agora sou membro da casa,\u201d reconhece o participante.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O preconceito que ainda marca o hip-hop<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da crescente ades\u00e3o e da visibilidade que o improviso tem vindo a ganhar, a cultura hip-hop continua a ser alvo de preconceitos. Em muitos contextos, estas pr\u00e1ticas ainda s\u00e3o associadas a estere\u00f3tipos marginais, e muitos, acabam ainda, por ignorar o valor art\u00edstico e o impacto cultural que estes movimentos carregam. Jo\u00e3o Covinha sustenta que essa ideia n\u00e3o se limita apenas \u00e0 imagem associada a quem gosta e frequenta batalhas, mas estende-se \u00e0 tentativa de rebaixar quem o faz: \u201cquerem dar a entender que rimar \u00e9 uma coisa m\u00e1, que n\u00e3o transmite uma boa imagem, mas as pessoas t\u00eam de perceber e entender que rap n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 degenerados,\u201d explica o estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>A roda funciona tamb\u00e9m como espa\u00e7o de aprendizagem e inclus\u00e3o. Diogo Silva, de 34 anos, um dos participantes mais recentes e atual campe\u00e3o da Batalha da Visa, sublinha o contraste entre a agressividade verbal dentro da batalha e o ambiente fora dela: \u201cdentro da batalha atacamo-nos, \u00e9 violento, mas fora somos todos amigos, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o at\u00e9 para a sociedade,\u201d refere. Para o participante, errar faz parte do percurso e \u00e9 a chave para o sucesso: \u201ca minha primeira batalha foi um bocado estranha, dar um passo em falso, acabou por ser importante para me alinhar no caminho,\u201d recorda o campe\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"589\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1482-1024x589.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21629\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1482-1024x589.jpeg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1482-300x173.jpeg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1482-768x442.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/IMG_1482.jpeg 1050w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>De roda em roda pelo pa\u00eds<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais velho do que a maioria, Diogo Silva assume tamb\u00e9m um papel log\u00edstico e comunit\u00e1rio, ajudando a levar outros participantes a batalhas noutras cidades, afirmando que \u201cos MC\u00b4s &nbsp;n\u00e3o devem perder tempo a rimar sempre contra os mesmos, sempre na mesma roda e \u00e9 importante fazer pelo movimento, ter andamento e batalhar com novas pessoas, pelo desafio.\u201d As vit\u00f3rias simbolizadas pelas \u201cfolhinhas\u201d (documento informal que \u201ccertifica\u201d o vencedor de cada batalha), s\u00e3o motiva\u00e7\u00e3o, ainda que \u201cganhar n\u00e3o quer dizer nada, mas ao mesmo tempo d\u00e1 aquela for\u00e7a extra de motiva\u00e7\u00e3o para se ser cada vez melhor,\u201d justifica o participante.<\/p>\n\n\n\n<p>Aberta a todos, a roda afirma-se como um espa\u00e7o de inclus\u00e3o, onde qualquer pessoa pode entrar e rimar, independentemente de quem \u00e9, ou de onde vem. No fim, o que fica n\u00e3o \u00e9 o sil\u00eancio, mas o eco. O c\u00edrculo desfaz-se, as vozes baixam e o beat desliga-se, mas a roda continua em movimento. De norte a sul do pa\u00eds, as rimas seguem viagem, ligando ruas, cidades e pessoas diferentes e continuam a circular, mantendo viva uma cultura no improviso e na partilha, porque enquanto houver voz, h\u00e1 roda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Improviso. \u00c9 a palavra que surge no pensamento quando se ouve falar da Batalha da Visa. Nada \u00e9 escrito, nada \u00e9 ensaiado, nada se repete. \u00c0 volta, forma-se uma roda apertada de pessoas, algumas de bra\u00e7os cruzados, outras a reagir a cada punchline. No centro, dois MC\u2019s encaram-se em sil\u00eancio, at\u00e9 que a primeira rima sai, de forma espont\u00e2nea, arrancando gritos e risos do p\u00fablico. 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