{"id":21618,"date":"2026-01-23T18:53:34","date_gmt":"2026-01-23T18:53:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21618"},"modified":"2026-01-23T18:53:36","modified_gmt":"2026-01-23T18:53:36","slug":"queijo-serra-da-estrela-o-sabor-da-tradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21618","title":{"rendered":"Queijo Serra da Estrela. O sabor da tradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>A tradi\u00e7\u00e3o em vias de extin\u00e7\u00e3o. Com apenas oito anos tornou-se pastora. Muitas d\u00e9cadas se passaram, mas Helena Cardoso n\u00e3o deixa de fazer o que aprendeu. As suas m\u00e3os moldam todos os dias o produto mais conhecido da Serra da Estrela, o queijo que \u00e9 o sabor da tradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 feito com leite de ovelha de ra\u00e7a bordeleira, uma ra\u00e7a de origem antiga que pode estar em vias de extin\u00e7\u00e3o. Quer os animais, quer os pastores e o pr\u00f3prio produto com Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida (DOP).<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de Cl\u00e1udia Peralta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Helena Cardoso come\u00e7ou a ser pastora em menina, na aldeia do Bara\u00e7al, concelho de Celorico da Beira. Tinha oito anos, mesmo antes de come\u00e7ar a escolaridade obrigat\u00f3ria atual quarto ano do ensino b\u00e1sico. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAntigamente era assim, os filhos ajudavam os pais desde pequenos. Comecei a trabalhar muito nova e s\u00f3 frequentava a escola quando n\u00e3o era precisa\u201d, contou Helena Cardoso. Mesmo assim, conseguiu concluir a quarta classe. A vida de pastora n\u00e3o tem feriados, dias santos, fins de semana, nem f\u00e9rias. Ainda antes de levar os animais a pastar havia a obriga\u00e7\u00e3o de os ordenhar tal como no regresso de um dia passado na serra ao frio, \u00e0 chuva, vento e neve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO queijo bom faz-se no tempo do frio. Depois vem o calor, h\u00e1 menos leite, mas o trabalho continua, os animais precisam de comer todos os dias\u201d, contou a queijeira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ovelhas-bordeleiras-1-1024x682.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-21621\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ovelhas-bordeleiras-1-1024x682.png 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ovelhas-bordeleiras-1-300x200.png 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ovelhas-bordeleiras-1-768x512.png 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Ovelhas-bordeleiras-1.png 1229w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Ovelhas bordaleiras<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Helena Cardoso, quando terminou a escola, juntou ao pastoreio a obriga\u00e7\u00e3o de fazer queijo. \u201cEra um saber que vinha de m\u00e3es para filhas. Sempre se ouviu dizer que s\u00f3 as mulheres com m\u00e3o frias \u00e9 que faziam bom queijo\u201d, recordou.<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples o queijo Serra da Estrela tem v\u00e1rios requisitos, ser feito manualmente com leite de ovelha bordaleira, posto anteriormente a coalhar com uma mistura de flor de cardo e sal. E, assim, Helena Cardoso passou os \u00faltimos quarenta anos. Ser queijeira foi uma profiss\u00e3o que n\u00e3o escolheu, mas da qual aprendeu a gostar.<\/p>\n\n\n\n<p>As exig\u00eancias atuais de higiene e de sa\u00fade alimentar nada se assemelham \u00e0s de antigamente. O queijo era feito dentro das casas particulares, na cozinha ou noutro espa\u00e7o destinado a esse fim. Embora os objetos se mantenham praticamente os mesmo nas queijarias, como a de Helena Cardoso, atualmente s\u00e3o exigidas regras de higiene e seguran\u00e7a alimentar rigorosas. A queijeira explicou que, atualmente, o fabrico do queijo tem de ser realizado fora da habita\u00e7\u00e3o, num espa\u00e7o pr\u00f3prio com as tais regras de higiene. Durante a produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio o uso de uma bata branca e touca e, ap\u00f3s a confe\u00e7\u00e3o do queijo, o local tem de ser cuidadosamente higienizado obedecendo a requisitos pr\u00e9-estabelecidos e afixados no local.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Helena-Cardoso-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-21622\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Helena-Cardoso-1024x683.png 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Helena-Cardoso-300x200.png 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Helena-Cardoso-768x512.png 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Helena-Cardoso.png 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Helena Cardoso<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Uma tradi\u00e7\u00e3o em risco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o do Queijo Serra da Estrela pode estar em risco. Este risco sente-se, sobretudo, na falta de quem queira continuar este trabalho \u00e1rduo sem dias de descanso. O processo \u00e9 exigente, os dias s\u00e3o longos e o esfor\u00e7o f\u00edsico \u00e9 constante, o que afasta as gera\u00e7\u00f5es mais novas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho muito orgulho no trabalho da minha m\u00e3e, mas sei que n\u00e3o vou seguir esta tradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma vida muito dura, sem hor\u00e1rios e com muito sacrif\u00edcio, e atualmente \u00e9 dif\u00edcil conciliar isso com outras escolhas\u201d, afirmou Susana Belo filha de Helena Cardoso.<\/p>\n\n\n\n<p>O queijo que sai das m\u00e3os de Helena Cardoso \u00e9 elaborado obedecendo a todos as exig\u00eancias do processo tradicional, contudo, o seu queijo n\u00e3o \u00e9 Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida (DOP). Apenas se pode chamar \u201cqueijo de ovelha curado\u201d. O que lhe falta?<\/p>\n\n\n\n<p>A certifica\u00e7\u00e3o do Queijo Serra da Estrela implica um processo exigente e rigoroso. Segundo Lurdes Morais, funcion\u00e1ria de uma queijaria que possui certifica\u00e7\u00e3o DOP, ap\u00f3s o fabrico cada queijo tem de receber um selo de case\u00edna, permanente e colocado no pr\u00f3prio queijo na \u00faltima fase da feitura. Lurdes Morais explicou ainda que, para obter essa certifica\u00e7\u00e3o, os produtores t\u00eam de submeter o produto a provadores e suportar a custos pr\u00f3prios, tanto a aquisi\u00e7\u00e3o do selo como a rotulagem, uma vez que o Estado n\u00e3o financia nenhum destes distintivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m disso, os produtores s\u00e3o alvo de inspe\u00e7\u00f5es rigorosas e dever\u00e3o ter uma contabilidade organizada, o que pode representar uma dificuldade acrescida para muitos, tendo em conta que a maioria j\u00e1 com alguma idade tem pouca instru\u00e7\u00e3o para as tarefas elaboradas. Com todas estas exig\u00eancias e trabalho \u00e1rduo, o produto tem um custo mais elevado. Por isso, s\u00e3o cada vez menos os produtores que certificam o queijo como DOP. Contudo, as produ\u00e7\u00f5es t\u00eam venda assegurada para clientes de h\u00e1 muitos anos, que n\u00e3o exigem a certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Lurdes Morais acrescentou que o queijo Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida (DOP) custa sensivelmente o dobro do pre\u00e7o do que n\u00e3o est\u00e1 certificado. Por todas estas raz\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil encontrar em muitas lojas de produtos regionais o queijo de ovelha DOP. \u201cDevido ao seu pre\u00e7o s\u00f3 \u00e9 vendido em lojas e restaurantes gourmet. O que se encontra at\u00e9 no centro de com\u00e9rcio na torre da Serra da Estrela s\u00e3o queijos de leite de ovelha curado\u201d, explicou Lurdes Morais.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um s\u00edmbolo da regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O inverno \u00e9 prop\u00edcio para a realiza\u00e7\u00e3o de feiras onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar queijo da Serra da Estrela DOP e tamb\u00e9m do que n\u00e3o t\u00eam essa denomina\u00e7\u00e3o de origem, s\u00e3o os tais queijos de ovelha curado. \u00c9 neste contexto que se enquadra, por exemplo a Feira do Queijo de Celorico da Beira, um dos momentos em que os produtores t\u00eam oportunidade de vender diretamente ao p\u00fablico e dar visibilidade ao produto do seu trabalho. Para muitos, a feira representa mais que um espa\u00e7o de venda, funcionando tamb\u00e9m como uma forma de divulgar a sua arte antiga e manter viva a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Cardoso \u00e9 uma das queijeiras que todos os anos participa neste evento regional, vendo ali o fruto do seu trabalho reconhecido com medalhas e trof\u00e9us atribu\u00eddos aos participantes com queijo distinguido pela sua qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 nestas mostras do produto protagonista, se pode verificar que a grande parte dos queijos expostos e comercializados n\u00e3o t\u00eam Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida, mesmo embora o m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o se mantenha fiel ao saber e ao sabor tradicional. Nem todas as feiras fazem uma separa\u00e7\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do produto DOP e do queijo de ovelha curado. Os clientes s\u00e3o levados ao engano quando pensam que todo o queijo de ovelha \u00e9 da ra\u00e7a bordaleira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>\u201cComo diz o ditado popular nem tudo o que luz \u00e9 ouro. Neste caso, nem todo o queijo de ovelha \u00e9 feito com leite de ovelha bordeleira e, \u00e0s vezes nem se quer de leite de ovelha de origem portuguesa\u201d<\/p><cite>Helena Cardoso<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias f\u00e1bricas, por exemplo em Celorico da Beira e Seia que importam leite proveniente de Espanha para a elabora\u00e7\u00e3o do queijo que vendem. Onde estar\u00e1 o segredo?<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Cardoso explicou que a informa\u00e7\u00e3o sobre a origem do leite est\u00e1 muitas vezes dissimulada na etiqueta do produto, sendo necess\u00e1rio procurar nas letras pequenas. Referiu que, quando surge a indica\u00e7\u00e3o &#8220;UE\u201d, o queijo \u00e9 feito com leite vindo de Espanha. S\u00f3 a palavra Portugal assegura origem nacional do leite, contudo, isso n\u00e3o significa igualmente que seja de ovelha de ra\u00e7a bordaleira, caracter\u00edstica da Serra da Estrela. Logo, o queijo produzido na regi\u00e3o da Serra da Estrela n\u00e3o significa que \u00e9 queijo de Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas d\u00favidas s\u00e3o suficientes para se perceber que o verdadeiro queijo Serra da Estrela pode corre s\u00e9rios riscos de desaparecer a breve prazo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"776\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/queijo-Amaro-Belo-1024x776.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-21623\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/queijo-Amaro-Belo-1024x776.png 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/queijo-Amaro-Belo-300x227.png 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/queijo-Amaro-Belo-768x582.png 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/queijo-Amaro-Belo.png 1253w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Queijo Amaro Ant\u00f3nio Belo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O queijo Serra da Estrela que honra o valor do tempo, do trabalho \u00e1rduo e da tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente um produto apetec\u00edvel e de sabor inconfund\u00edvel, poder\u00e1 ser considerado um valor imaterial e a alma de toda a regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradi\u00e7\u00e3o em vias de extin\u00e7\u00e3o. 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