{"id":21544,"date":"2026-01-03T16:16:22","date_gmt":"2026-01-03T16:16:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21544"},"modified":"2026-01-03T16:16:23","modified_gmt":"2026-01-03T16:16:23","slug":"alteracoes-climaticas-e-baixa-rentabilidade-ameacam-producao-da-maca-bravo-de-esmolfe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=21544","title":{"rendered":"Altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e baixa rentabilidade amea\u00e7am produ\u00e7\u00e3o da ma\u00e7\u00e3 Bravo de Esmolfe"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por:<\/strong> Matilde Fernandes <\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o da ma\u00e7\u00e3 Bravo de Esmolfe, uma das maiores refer\u00eancias agr\u00edcolas de Penalva do Castelo e pe\u00e7a central da chamada\u00a0<a>\u201ctrilogia da excel\u00eancia\u201d<\/a> ao lado do queijo Serra da Estrela e do vinho do D\u00e3o, vive um dos momentos mais delicados das \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre o peso crescente das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a fraca rentabilidade para o agricultor e a falta de renova\u00e7\u00e3o geracional, tanto Francisco Carvalho, antigo presidente da C\u00e2mara de Penalva do Castelo e atual presidente da Assembleia Municipal, como Nuno Marques, produtor desde jovem e presidente de Junta da Freguesia de Esmolfe, deixam o mesmo aviso: se nada mudar, o futuro desta variedade\u00a0<a>DOP<\/a>\u00a0(Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Protegida) est\u00e1 seriamente comprometido.<\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Carvalho recorda que a Bravo de Esmolfe \u201ctem o seu ber\u00e7o hist\u00f3rico em Esmolfe\u201d e beneficia de um microclima \u00fanico, marcado pelos vales e pelos rios que envolvem o concelho, o que favorece ver\u00f5es mais amenos e invernos menos rigorosos. Dessa combina\u00e7\u00e3o resulta uma ma\u00e7\u00e3 com \u201csabor mais adocicado, polpa macia e, muitas vezes, uma tonalidade rosada\u201d, dif\u00edcil de replicar noutros territ\u00f3rios, al\u00e9m de um aroma t\u00e3o intenso que, em tempos, servia para perfumar as casas rurais, neutralizando os odores vindos\u00a0<a>das cortes\u00a0<\/a>de animais. \u00c9 esse produto, s\u00edmbolo da identidade local e motor da estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o tur\u00edstica do concelho, que hoje se v\u00ea confrontado com uma conjuntura adversa.<\/p>\n\n\n\n<p>No pomar, Nuno Marques traduz em n\u00fameros e gestos o que a teoria clim\u00e1tica anuncia. Fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o passada pelo pai, garante que a apanha \u201cnunca come\u00e7a antes de 25 de setembro\u201d: colher antes dessa data \u00e9 \u201casneira\u201d, porque a ma\u00e7\u00e3 n\u00e3o chega a desenvolver o sabor, o cheiro e a polpa macia que a distinguem. Apanhada cedo demais, a fruta fica rija, sem aroma \u00e9 \u201cquase como borracha\u201d, afirma Marques. Este ano, apesar de ter havido muita ma\u00e7\u00e3 nas \u00e1rvores, a produ\u00e7\u00e3o ficou marcada por frutos pequenos e de calibre insuficiente, resultado de um ver\u00e3o \u201cmuito seco e prolongado\u201d, com temperaturas a rondar os 42 e 43 graus, quando o ideal seriam 30 a 32 graus para permitir um crescimento equilibrado. Nessas condi\u00e7\u00f5es, as \u00e1rvores \u201cparam os crescimentos e vivem para elas pr\u00f3prias\u201d, sacrificando o tamanho e a qualidade comercial. Como se n\u00e3o bastasse, a Bravo de Esmolfe \u00e9 uma variedade de produ\u00e7\u00e3o alternante, \u201cano sim, ano n\u00e3o\u201d, o que faz com que a fraca colheita num ano que deveria ter sido \u201cano forte\u201d represente uma oportunidade perdida que n\u00e3o voltar\u00e1 de imediato.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante este cen\u00e1rio, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas surgem como obst\u00e1culo maior e praticamente incontorn\u00e1vel. Nuno Marques admite que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativas\u201d e que se trata de \u201cum problema que nos assola e n\u00e3o tem retorno\u201d, embora sublinhe que o agricultor vive sempre na esperan\u00e7a de que \u201co ano a seguir seja melhor\u201d. Francisco Carvalho concorda e acrescenta outro elemento estrutural: o interior continua, na sua vis\u00e3o, \u201cesquecido\u201d pelas pol\u00edticas agr\u00edcolas. Defende que fertilizantes, fitofarmac\u00eauticos e seguros devem ser ajustados \u00e0 realidade do agricultor, com apoios na origem, para reduzir custos e garantir que, \u201co agricultor n\u00e3o vai para a cama preocupado\u201d e \u201cindemnizado integralmente\u201d se perder a colheita. Sem esse tipo de prote\u00e7\u00e3o, insiste, n\u00e3o h\u00e1 forma de sustentar a produ\u00e7\u00e3o num contexto de risco crescente.<\/p>\n\n\n\n<p>No mercado, a Bravo de Esmolfe continua a ser um produto apreciado e procurado. A maior parte da produ\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 absorvida pelo pr\u00f3prio pa\u00eds, embora exista algum escoamento para a Su\u00ed\u00e7a, Fran\u00e7a, Alemanha e B\u00e9lgica, atrav\u00e9s de transportadores que abastecem as comunidades emigrantes. Por\u00e9m, o verdadeiro problema est\u00e1 na diferen\u00e7a entre o que o consumidor paga e o que o produtor recebe. Nos supermercados, o quilo de Bravo de Esmolfe pode aproximar-se dos cinco euros, enquanto o agricultor recebe cerca de 60 c\u00eantimos. \u201cN\u00e3o s\u00e3o 60, s\u00e3o 30\u201d, clarifica Nuno Marques, lembrando que, como a \u00e1rvore produz um ano sim e ano n\u00e3o, o rendimento real tem de ser dividido. Em compara\u00e7\u00e3o, a Golden \u201cd\u00e1 dinheiro muito mais r\u00e1pido\u201d, o que leva muitos produtores a substitu\u00edrem os pomares tradicionais por variedades mais est\u00e1veis e menos trabalhosas, acelerando o abandono da ma\u00e7\u00e3 Bravo de Esmolfe.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, a variedade guarda tra\u00e7os \u00fanicos dif\u00edceis de igualar. Segundo Nuno Marques, trata-se de uma ma\u00e7\u00e3 especialmente rica em antioxidantes e c\u00e1lcio, ao ponto de estar associada \u00e0 doen\u00e7a de \u201cpeterpit\u201d, ligada ao d\u00e9fice de c\u00e1lcio, que obriga a um maior cuidado durante o ciclo produtivo, mas resulta num fruto com concentra\u00e7\u00e3o muito elevada desse mineral. \u201cQuando se d\u00e1 uma trinca, fica logo castanha, oxida logo\u201d, descreve, vendo nessa rea\u00e7\u00e3o um reflexo da carga de antioxidantes. Estudos laboratoriais, refere, j\u00e1 apontam benef\u00edcios na sa\u00fade \u00f3ssea e at\u00e9 em certas \u00e1reas de investiga\u00e7\u00e3o oncol\u00f3gica. Francisco Carvalho refor\u00e7a que estas propriedades, aliadas ao sabor e ao aroma \u00fanico, fazem da Bravo de Esmolfe um produto de grande potencial para o consumo de qualidade e para a valoriza\u00e7\u00e3o tur\u00edstica do concelho, sobretudo quando integrada em roteiros que juntam a ma\u00e7\u00e3, o queijo e o vinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o maior desafio pode estar na sucess\u00e3o. Nuno Marques, que participa em feiras, especialmente a feira ligada a esta ma\u00e7\u00e3, Feira Bravo de Esmolfe, e procura envolver a comunidade, diz ter apelado v\u00e1rias vezes aos jovens para que abracem a produ\u00e7\u00e3o, nem que seja como complemento a outra profiss\u00e3o. Apesar disso, reconhece que \u201cn\u00e3o tem surtido efeito\u201d e que \u201ccada vez h\u00e1 menos produtores\u201d, travados pelos custos de m\u00e3o de obra, pelo esfor\u00e7o exigido e pela fraca rentabilidade. Francisco Carvalho partilha a preocupa\u00e7\u00e3o, lembrando que muitas das novas gera\u00e7\u00f5es rumam ao ensino superior e n\u00e3o regressam, porque a agricultura deixou de ser uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, mantendo-se os pomares sobretudo por tradi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como aposta econ\u00f3mica estruturada.<\/p>\n\n\n\n<p>Face a tudo isto, o antigo presidente da C\u00e2mara defende que a resposta tem de ser articulada: passa por refor\u00e7ar as feiras e a promo\u00e7\u00e3o dos produtos end\u00f3genos, criar condi\u00e7\u00f5es de armazenamento em c\u00e2maras frigor\u00edficas no pr\u00f3prio concelho para prolongar a disponibilidade da ma\u00e7\u00e3 ao longo do ano, subsidiar parte dos custos de produ\u00e7\u00e3o e assegurar seguros de colheita. Acredita que, se o munic\u00edpio e o Estado conseguirem criar um ambiente favor\u00e1vel e garantir que quem produz n\u00e3o trabalha \u201c\u00e0 sua conta e risco\u201d, a Bravo de Esmolfe continuar\u00e1 a ser um cart\u00e3o de visita do concelho e uma fonte de rendimento relevante, sobretudo ligada ao turismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre o realismo duro do produtor e a vis\u00e3o estrat\u00e9gica do autarca, o retrato converge: a Bravo de Esmolfe, que colocou Penalva do Castelo no mapa agr\u00edcola e tur\u00edstico, atravessa um momento decisivo. Entre clima extremo, custos elevados, rendimentos reduzidos e falta de sucessores, a continuidade da variedade est\u00e1 em causa. Mas ambos deixam uma ideia-chave: se for devidamente apoiada, valorizada e modernizada, esta ma\u00e7\u00e3 poder\u00e1 continuar a perfumar pomares, mercados e casas de Penalva por muitas mais gera\u00e7\u00f5es; se nada for feito, arrisca-se a tornar-se apenas mem\u00f3ria de um tempo em que o concelho se reconhecia no sabor intenso de uma fruta pequena e \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Matilde Fernandes A produ\u00e7\u00e3o da ma\u00e7\u00e3 Bravo de Esmolfe, uma das maiores refer\u00eancias agr\u00edcolas de Penalva do Castelo e<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":21545,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[462],"tags":[2721,2118,5156,1005],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21544"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21546,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21544\/revisions\/21546"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/21545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}