{"id":16025,"date":"2022-09-15T16:56:28","date_gmt":"2022-09-15T16:56:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=16025"},"modified":"2022-09-15T17:04:43","modified_gmt":"2022-09-15T17:04:43","slug":"covid-19-a-cultura-em-tempos-de-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=16025","title":{"rendered":"Covid-19: A Cultura em tempos de pandemia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cAos 25 anos e com uma vida j\u00e1 estruturada de forma independente, vi-me for\u00e7ada a voltar para casa dos meus pais e ficar l\u00e1 durante quatro meses. N\u00e3o tinha outra forma de sobreviver\u201d<\/p><cite>Joana Sarabando, atriz<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de Ana Filipa Santos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Joana Sarabando, 25 anos, atriz. Foi mais uma, num universo de tantos outros, que ficou, de um dia para o outro, impedida de trabalhar e sem qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o social. \u201cParei por completo durante quatro meses. Num mercado laboral extremamente prec\u00e1rio, com trabalho sazonal, sal\u00e1rios extremamente baixos e falta de contratos de trabalho&#8230; Foi muito f\u00e1cil vermos negado qualquer tipo de prote\u00e7\u00e3o social ou acesso a subs\u00eddios. O governo falava em subs\u00eddios e apoios mas, na maioria das vezes, n\u00e3o consegu\u00edamos chegar at\u00e9 eles porque diziam que n\u00e3o cumpr\u00edamos as condi\u00e7\u00f5es de recurso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Joana-Sarabando_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16027\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Joana-Sarabando_2.jpg 960w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Joana-Sarabando_2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Joana-Sarabando_2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Joana Sarabando (fotografia de Carlos Gomes)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da pandemia de covid-19 foram sentidas um pouco por todo mundo, e foi o setor da cultura, um setor por defeito inst\u00e1vel e com condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, um dos mais afetados. Com eventos cancelados, institui\u00e7\u00f5es culturais a serem encerradas e pr\u00e1ticas culturais suspensas, instalou-se uma crise sem precedentes no setor cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>No resumo dos dados que o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE) disponibiliza, pode ler-se que \u201cem 2020, o n\u00famero de sess\u00f5es de espect\u00e1culos ao vivo reduziu-se em 59,6%; foram vendidos menos 76,8% de bilhetes; verificou-se um decr\u00e9scimo de 85,1% no n\u00famero de espectadores e de 80,1% nas receitas de bilheteira, a que correspondeu uma diminui\u00e7\u00e3o de 100,4 milh\u00f5es de euros relativamente a 2019\u201d. N\u00e3o resta margem de d\u00favida: o setor cultural enfrenta uma crise sem precedentes por conta da pandemia de Covid-19 da qual ser\u00e1 muito penoso sair.<\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida: de um v\u00edrus desconhecido que, segundo o Centro Europeu de Preven\u00e7\u00e3o e Controlo de Doen\u00e7as, teria uma baixa probabilidade de propaga\u00e7\u00e3o humana, passamos para uma pandemia de COVID-19 que, no final do primeiro semestre de 2020, j\u00e1 tinha contaminado mais de dez milh\u00f5es de pessoas e provocado mais de meio milh\u00e3o de v\u00edtimas mortais. Por forma a conseguir fazer face \u00e0 pandemia, o governo viu-se na obriga\u00e7\u00e3o de adotar um conjunto de medidas para tentar conter da sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema foi que essas medidas imobilizaram, quase na totalidade, todos os intervenientes da ind\u00fastria cultural \u2013 atores, bailarinos, encenadores, m\u00fasicos, maestros, entre tantos outros, viram-se for\u00e7ados a parar de trabalhar por tempo incerto. Esta imobiliza\u00e7\u00e3o levou a sucessivos cancelamentos de eventos, o que resultou em preju\u00edzos avultados. As artes performativas, com perdas de 90%, foram as mais afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda por conta dos cancelamentos de eventos em massa, verificou-se \u201cuma redu\u00e7\u00e3o no volume de neg\u00f3cios anual, com 48,2% das organiza\u00e7\u00f5es e 70,5% dos profissionais a constatarem uma redu\u00e7\u00e3o no volume de neg\u00f3cios de, no m\u00ednimo, 50%&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes dados s\u00e3o inequ\u00edvocos e revelam que os impactos da COVID-19 no setor cultural portugu\u00eas ser\u00e3o extremamente significativos. \u201cAs organiza\u00e7\u00f5es e os profissionais do setor cultural, auscultados atrav\u00e9s de um inqu\u00e9rito por question\u00e1rio, n\u00e3o deixaram margem para d\u00favidas revelando que, se n\u00e3o forem tomadas medidas urgentes, substantivas e estruturantes, o setor cultural portugu\u00eas poder\u00e1 sofrer danos irrepar\u00e1veis fruto da pandemia&#8221;, refere o mesmo estudo do POLObs.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16029\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos-300x200.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos-768x512.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Sala-de-espeta\u0301culos.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar de haver quem tenha conseguido beneficiar de apoio p\u00fablico durante o per\u00edodo em que n\u00e3o foi permitido trabalhar, muitos foram aqueles \u2013 empresas ou profissionais independentes \u2013 que n\u00e3o tiveram acesso a qualquer tipo de apoio, ficando assim sem qualquer meio de subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os impactos desta paragem abrupta n\u00e3o tardaram em sentir-se. \u201cAos 25 anos e com uma vida j\u00e1 estruturada de forma independente, vi-me for\u00e7ada a voltar para casa dos meus pais e ficar l\u00e1 durante quatro meses. N\u00e3o tinha outra forma de sobreviver. Os custos s\u00e3o completamente incomport\u00e1veis quando n\u00e3o tens qualquer fonte de rendimento. Deixei de ter dinheiro para comer e a prioridade focou-se em n\u00e3o perder o meu apartamento. Esta mudan\u00e7a foi assustadora e tive um impacto brutal na minha sa\u00fade mental\u201d, conta Joana Sarabando.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m Manuel Silva, maestro da Banda Uni\u00e3o Musical Paramense, relata algumas das consequ\u00eancias desta pandemia no que diz respeito ao funcionamento das bandas filarm\u00f3nicas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16028\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1-300x300.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1-768x768.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Manuel-Silva_1.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Manuel Silva (fotografia de Ana Santos)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cComo maestro de uma banda filarm\u00f3nica, o principal impacto sentido \u00e9 mesmo o da impossibilidade de ensaiar e de manter a atividade art\u00edstica regular. Como \u00e9 sabido, as bandas filarm\u00f3nicas s\u00e3o compostas por uma grande quantidade de m\u00fasicos amadores que acabam por tocar o seu instrumento musical uma vez por semana, quando se realizam os ensaios. Esta impossibilidade de reunir para ensaiar implicou que muitos desses m\u00fasicos amadores tivessem interrompido a sua pr\u00e1tica regular, o que consequentemente representou uma grande perda de capacidades e conhecimentos j\u00e1 adquiridos, tendo mesmo acontecido alguns desses m\u00fasicos abandonarem por completo a sua atividade musical&#8221;.<\/p><cite>Manuel Silva, maestro da Banda Uni\u00e3o Musical Paramense<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com o fraco e insuficiente apoio do estado, muitas bandas filarm\u00f3nicas viram os seus m\u00fasicos abandonarem a atividade musical, o que representou um duro golpe na sobreviv\u00eancia destas associa\u00e7\u00f5es e dificultou tamb\u00e9m o seu regresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se as dificuldades sentidas foram muitas, a resili\u00eancia no setor da cultura revelou-se ainda maior. Em resposta \u00e0 for\u00e7ada imobiliza\u00e7\u00e3o, muitos artistas, atores, m\u00fasicos, performers optaram por apresentar os seus projetos online. De um momento para o outro, as redes sociais foram inundadas de concertos transmitidos em direto, museus a fazerem visitas guiadas virtuais, podcasts e s\u00e9ries come\u00e7aram a surgir. Passou a ser natural para muitos portugueses ver e participar em atividades virtuais, principalmente atrav\u00e9s das redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEnquanto artista, tive que me reinventar e descobrir novas formas de poder difundir a minha arte, mas nunca foi suficiente. Porque engane-se quem pensa que este tipo de iniciativas trazia um grande retorno financeiro. Os meios n\u00e3o eram os desejados e o alcance ficava muito aqu\u00e9m daquilo que seria expect\u00e1vel. Apesar de terem surgido alguns projetos, poucos eram pagos e os que eram, nunca eram suficientes para que pudesse ver a minha independ\u00eancia de volta. Por isso, ansiei muito este regresso \u00e0s salas de espet\u00e1culo. \u00c9 um regresso arriscado, a medo, sempre na corda bamba porque a qualquer momento um dos elementos da produ\u00e7\u00e3o pode ficar infetado e comprometer a realiza\u00e7\u00e3o de um espect\u00e1culo, mas um regresso muito aguardado, muito feliz e com muita for\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 nada que substitua o ritual de sair de casa, ir at\u00e9 uma sala de espect\u00e1culos, ver outras pessoas, sentir ao vivo as emo\u00e7\u00f5es transmitidas! E com isto pe\u00e7o, venham ao teatro, v\u00e3o ver concertos, v\u00e3o visitar museus! A cultura \u00e9 segura e precisa muito de todos n\u00f3s!\u201d.<\/p><p><\/p><cite>Joana Sarabando<\/cite><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAos 25 anos e com uma vida j\u00e1 estruturada de forma independente, vi-me for\u00e7ada a voltar para casa dos meus<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":16032,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[2662,3879,271],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16025"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=16025"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16033,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16025\/revisions\/16033"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/16032"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=16025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=16025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=16025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}