{"id":15194,"date":"2022-02-09T08:46:05","date_gmt":"2022-02-09T08:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=15194"},"modified":"2022-02-09T09:44:13","modified_gmt":"2022-02-09T09:44:13","slug":"trabalhar-por-conta-propria-uma-escolha-para-aventureiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=15194","title":{"rendered":"Trabalhar por conta pr\u00f3pria, uma escolha para aventureiros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE), em 2020, eram cerca de 800 mil o n\u00famero de trabalhadores por conta pr\u00f3pria, sendo que 72% destes n\u00e3o emprega terceiros. Num inqu\u00e9rito realizado em 2018 pelo INE, o que se concluiu \u00e9 que a maioria destes trabalhadores que n\u00e3o empregam outros est\u00e1 bem assim e que n\u00e3o est\u00e1 nos seus planos vir a ter empregados.<\/em><\/strong> <strong><em>Alguns destes trabalhadores encontram-se nas pequenas aldeias, um pouco por todo o pa\u00eds, como \u00e9 o caso de Fernando Paiva e Hor\u00e1cio Silva. Naturais do concelho de S\u00e3o Pedro do Sul, ambos mant\u00eam as suas pequenas empresas por conta pr\u00f3pria.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de Maria Jo\u00e3o Paiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Paiva \u00e9 carpinteiro e trabalha por conta pr\u00f3pria h\u00e1 mais de 21 anos e, durante uma parte deste tempo, chegou a ter um empregado. Acabou por o dispensar quando percebeu que o trabalho que fazia, mesmo que por vezes seja muito para uma s\u00f3 pessoa, n\u00e3o compensava assim tanto para o ordenado mensal do seu trabalhador. Admitiu ainda que \u201cpor mais duro que seja, trabalhar sozinho \u00e9 algo que me deixa muito satisfeito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos estes anos a trabalhar sozinho, reconhece que a idade j\u00e1 est\u00e1 a complicar a sua atividade exatamente por este motivo, mas por enquanto faz quest\u00e3o de se manter assim. Em entrevista, Fernando Paiva admitiu que apesar da experi\u00eancia que j\u00e1 traz consigo, ainda h\u00e1 alturas em que se torna mais complexo gerir o que vai ganhando. Segundo o carpinteiro, \u201cn\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que consegue trabalhar sem a seguran\u00e7a do ordenado no final do m\u00eas, \u00e9 preciso ser-se aventureiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"566\" height=\"424\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15195\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando1.jpg 566w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><figcaption>Fernando Paiva<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que um trabalhador por conta pr\u00f3pria n\u00e3o recebe se n\u00e3o trabalhar e se h\u00e1 coisa que preocupa Fernando Paiva, \u00e9 a quest\u00e3o da reforma. Na opini\u00e3o deste trabalhador, o Estado portugu\u00eas n\u00e3o est\u00e1 preparado para quando a maioria da popula\u00e7\u00e3o, que neste momento se encontra ativa, se reformar e ele, sendo independente e n\u00e3o trabalhador da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, teme n\u00e3o conseguir manter a qualidade de vida que idealiza na sua reforma: \u201cn\u00e3o se trata de ter uma vida de luxo, mas sim uma vida confort\u00e1vel em que o dinheiro d\u00ea para eu comprar tudo o que precise e n\u00e3o s\u00f3 as despesas da farm\u00e1cia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da carpintaria ser o seu foco, Fernando Paiva admite aceitar servi\u00e7os de mudan\u00e7as uma vez por outra, para conseguir um dinheiro extra. Questionado sobre o facto de n\u00e3o conseguir chegar ao fim de todos os meses com dinheiro, Fernando admitiu que \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 a parte mais dif\u00edcil: \u201ceu tenho quatro filhos e embora duas j\u00e1 sejam independentes, foi muito complicado em alturas como as de comprar os manuais escolares. O facto de eu trabalhar por conta pr\u00f3pria fazia com que aos olhos do sistema os meus filhos n\u00e3o tivessem nenhum apoio nem subs\u00eddio, o que significava pagar 600 ou 700 euros pelos livros de todos. Se os meses anteriores me tivessem corrido mal, n\u00e3o havia nenhuma entidade a assegurar-me nada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m deste aspeto, o carpinteiro de longa data admite que a grande dificuldade que enfrenta \u00e9 mesmo a falta de apoios que sente por parte do Estado e do Governo, n\u00e3o s\u00f3 quando se reformar, mas tamb\u00e9m enquanto se encontra em atividade. \u201cN\u00e3o havendo uma regularidade de m\u00eas para m\u00eas, \u00e9 muito f\u00e1cil imaginar-me a ficar sem trabalho. Nunca aconteceu durante todos estes anos, mas \u00e9 uma vis\u00e3o que facilmente se imagina quando o pouco lucro que se vai fazendo tem que ser descontado e, num cen\u00e1rio sem rendimentos, o que o Estado vai continuar a fazer \u00e9 a exigir e n\u00e3o dar os apoios necess\u00e1rios para eu continuar a exercer\u201d, desabafa Fernando Paiva. O profissional admite ainda que teme ter algum problema de sa\u00fade, que o impe\u00e7a de trabalhar, pois caso isso aconte\u00e7a, sabe que dificilmente alguma entidade o ajuda: \u201cs\u00f3 o ordenado da minha esposa \u00e9 que vai apoiar-me\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Pessoas mais s\u00e9rias e de palavra&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hor\u00e1cio Silva, construtor h\u00e1 mais de 25 anos, admite que uma das tarefas mais complicadas \u00e9 a compra do material. Sendo construtor numa pequena aldeia, embora fa\u00e7a servi\u00e7os fora dela, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil gerir os poucos ganhos para a compra de material no in\u00edcio de cada obra: \u201cquando n\u00f3s conhecemos as pessoas e sabemos as dificuldades que elas passam, \u00e9 complicado pedir o chamado adiantamento e isso dificulta a minha vida. Tenho que comprometer-me com os fornecedores e c\u00e1 me vou arranjando.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para este construtor as preocupa\u00e7\u00f5es passam muito por conseguir assegurar o ordenado do seu \u00fanico empregado, Carlos Almeida. Em entrevista, o funcion\u00e1rio admitiu que a rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com o patr\u00e3o se compara a uma rela\u00e7\u00e3o entre colegas de trabalho e que sabe qu\u00e3o complicados s\u00e3o alguns meses para o patr\u00e3o lhe dar o seu sal\u00e1rio: \u201cn\u00f3s temos esta rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, j\u00e1 de h\u00e1 muitos anos e se um dia o Hor\u00e1cio chegar ao p\u00e9 de mim e me disser que vou ter que esperar uns dias porque ainda n\u00e3o consegue pagar, eu vou compreender, porque neste aspeto de finan\u00e7as, ele est\u00e1 sozinho para manter a pequena empresa em andamento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAt\u00e9 podia ir trabalhar para uma empresa maior, com mais seguran\u00e7a, mas estes meios mais pequenos acabam por nos oferecer conviv\u00eancias com pessoas mais s\u00e9rias e de palavra, algo muito raro hoje em dia\u201d, diz Carlos Almeida. Para o empregado de Hor\u00e1cio Silva, mais importante do que o dinheiro, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es interpessoais que uma empresa mais pequena acaba por oferecer.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o de \u00e1reas diferentes, mas as queixas acabam por ser as mesmas, pois tanto Fernando Paiva como Hor\u00e1cio Silva assumem que o Governo devia ter em conta a situa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel dos trabalhadores por conta pr\u00f3pria. O carpinteiro admite que os la\u00e7os de longos anos de trabalho permitem ter algum conforto quando se trata de pagar aos fornecedores: \u201cn\u00e3o h\u00e1 quem nos perceba melhor que os fornecedores. Eles v\u00eam \u00e0 minha oficina, veem o que eu fa\u00e7o e sabem o complicado \u00e9 em certas alturas. Se eles n\u00e3o nos forem ajudando com o material, e quando digo ajudar n\u00e3o \u00e9 oferecer, mas sim deixar-nos ir pagando, eu admito, n\u00e3o ia conseguir manter-me a trabalhar por conta pr\u00f3pria\u201d. Hor\u00e1cio acabou por desabafar este cen\u00e1rio, acrescentando que \u201capesar dos tempos mais individualistas em que vivemos, aqui \u00e9 que conseguimos perceber a entreajuda que ainda existe no meio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pandemia, ambos admitem que n\u00e3o sentiram as consequ\u00eancias que muitos trabalhadores sentiram porque se conseguiram ir arranjando trabalho. Hor\u00e1cio Silva revelou que \u201co que um trabalhador deste tipo acaba por sentir s\u00e3o os efeitos da crise. N\u00e3o sentimos logo uma quebra repentina nos confinamentos e por a\u00ed fora, come\u00e7amos a sentir isso \u00e9 quando os nossos clientes v\u00e3o deixando de poder gastar dinheiro com os nossos servi\u00e7os, como em qualquer \u00e9poca de crise\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gerir o tempo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Fernando Paiva, um dos melhores aspetos de trabalhar sozinho e por conta pr\u00f3pria \u00e9 a quest\u00e3o de poder gerir o seu tempo de trabalho da melhor maneira que entender. Este aspeto acaba por ser mesmo uma quest\u00e3o de motiva\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, um bom produto final. Ainda assim o que acaba por desmotivar \u00e9 a carga fiscal que um trabalhador por conta pr\u00f3pria sofre. \u201cPara a Seguran\u00e7a Social quanto mais eu faturo, mais tenho de pagar. Num m\u00eas posso pagar 50 euros e no m\u00eas a seguir j\u00e1 pago 300 euros. \u00c9 complicado\u201d, sustenta o carpinteiro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"566\" height=\"424\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15196\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando2.jpg 566w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/sr-fernando2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><figcaption>Carpintaria de Fernando Paiva<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando questionados sobre as principais diferen\u00e7as que sentem dos dias de hoje, comparativamente com os primeiros anos de profiss\u00e3o, a resposta n\u00e3o diferiu muito. Ambos afirmam que a idade \u00e9 o fator que mais pesa. Fernando Paiva admite mesmo que h\u00e1 dias em que a vontade e energia para trabalhar quase n\u00e3o existe, \u201cmas tem de ser\u201d. Por sua vez, Hor\u00e1cio Silva acaba por assumir que mesmo quando sente esta falta de vontade, o facto de ter um empregado acaba por o obrigar a sair para trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, Fernando Paiva n\u00e3o pensa contratar ningu\u00e9m para o acompanhar no seu dia a dia, mas n\u00e3o nega uma poss\u00edvel contrata\u00e7\u00e3o caso precise de manter a empresa com a mesma atividade e caso se sinta cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os trabalhadores independentes afirmam que, por mais que n\u00e3o seja uma decis\u00e3o de vida economicamente est\u00e1vel, foi o caminho que escolheram e a experi\u00eancia de vida profissional que esta escolha lhes deu \u00e9 de um valor inexplic\u00e1vel. \u201cPode ser precisa muita coragem, mas \u00e9 sem d\u00favida uma aventura di\u00e1ria muito enriquecedora\u201d, remata Fernando Paiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE), em 2020, eram cerca de 800 mil o n\u00famero de trabalhadores por conta<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":15198,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[399],"tags":[4157,271],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15194"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=15194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15199,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15194\/revisions\/15199"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/15198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=15194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=15194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=15194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}