{"id":13296,"date":"2021-07-13T14:19:51","date_gmt":"2021-07-13T14:19:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=13296"},"modified":"2021-07-13T14:25:38","modified_gmt":"2021-07-13T14:25:38","slug":"104-dias-a-historia-de-um-salao-de-beleza-que-ficou-com-a-vida-em-suspenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=13296","title":{"rendered":"104 Dias: a hist\u00f3ria de um sal\u00e3o de beleza que ficou com a vida em suspenso"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O <em>cabelo \u00e9 o vestido que nunca tiras.<br>Ele fala por ti todos os dias e valoriza o teu esp\u00edrito<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Um cabeleireiro \u00e9 isto mesmo, a imagem. As pessoas v\u00e3o para tratar da sua imagem, porque, afinal, s\u00e3o eles quem cuidam do nosso aspeto, daquele primeiro impacto. Mas, um sal\u00e3o de beleza n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto&#8230;com a conviv\u00eancia eventualmente acaba por surgir amizade verdadeira, confian\u00e7a; aquilo que se pode chamar de uma fam\u00edlia, que nem uma pandemia conseguiu abalar. Com as portas fechadas durante 104 dias, muitos dos la\u00e7os que se criam nestes espa\u00e7os foram refor\u00e7ados, demonstrando que s\u00e3o para a vida!<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de Lu\u00eds Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com uma hist\u00f3ria j\u00e1 de duas d\u00e9cadas, o cabeleireiro <em>Rostos Sim\u00e9tricos<\/em>, localizado no bairro de Marzovelos, em Viseu, foi fundado a 15 de abril de 1998 com o nome <em>Elas e Eles<\/em>. Desde ent\u00e3o, o sal\u00e3o de beleza tinha fechado apenas durante um ano, em 2004, quando Catarina Freitas, s\u00f3cia-gerente do estabelecimento, decidiu tirar um ano sab\u00e1tico em conjunto com o marido. O neg\u00f3cio corria de vento em popa, sendo mesmo um dos sal\u00f5es de cabeleireiro mais concorridos de Marzovelos. \u201cGanhava dinheiro quando n\u00e3o tinha empregadas, depois arranjei empregadas e deixei de ganhar dinheiro\u201d, comenta a gerente entre risos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O per\u00edodo negro dos confinamentos. \u00ab<\/strong><strong>Entrei completamente em p\u00e2nico\u00bb<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00e7o de 2020. Chega o fat\u00eddico m\u00eas que ainda assombra tudo e todos, sobretudo aqueles que vivem por conta pr\u00f3pria. Apanhando todos de surpresa, Catarina Freitas recorda que, aquando do primeiro confinamento, n\u00e3o sabia muito bem para o que ia. \u201cFechei a porta do cabeleireiro a pensar que ia para casa apenas durante 15 dias\u201d&#8230;duas semanas viriam a assumir a forma de quase dois meses. Neste per\u00edodo, cerca de 20% dos cabeleireiros do pa\u00eds n\u00e3o aguentaram e declararam insolv\u00eancia, mas o <em>Rostos Sim\u00e9tricos <\/em>conseguiu manter-se \u00e0 tona.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada em 2021 foi a machadada final em muitos dos estabelecimentos que haviam resistido ao ano anterior, pois em janeiro, Portugal entrou no segundo confinamento. \u201cDa segunda vez, entrei completamente em p\u00e2nico. Chegou a passar-me pela cabe\u00e7a ter de fechar as portas\u201d, conta a gerente. Em desespero por temer n\u00e3o conseguir cumprir as suas obriga\u00e7\u00f5es, Catarina Freitas chegou mesmo a contratar uma advogada para declarar insolv\u00eancia e p\u00f4r fim a uma luta contra a pandemia de Covid-19. \u201cA minha advogada \u00e9 minha cliente e disse que eu era maluca\u201d, confessa. E, desta forma, continuou esta longa batalha de cabe\u00e7a erguida.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a quarentena, as maiores preocupa\u00e7\u00f5es de Catarina Freitas foram ter a consci\u00eancia tranquila de que ia trabalhar com tudo pago. Com as portas fechadas durante quase quatro meses, nos dois confinamentos, teve que pagar o IVA, a Seguran\u00e7a Social, a renda, os ordenados, a medicina no trabalho, a higiene e seguran\u00e7a, fornecedores. \u201cFoi muito cansativo\u201d, reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem qualquer apoio por parte do Estado, Catarina Freitas conseguiu pagar tudo do seu bolso, tendo apenas recebido 80% do <em>lay-off <\/em>de duas das funcion\u00e1rias do cabeleireiro. Por agora, o seu maior medo \u00e9 que haja um terceiro confinamento. \u201cSe voltarmos a fechar vou para a garagem da minha casa atender clientes\u201d, garante a s\u00f3cia-gerente do sal\u00e3o de cabeleireiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vida dos sal\u00f5es de beleza em suspenso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vida no <em>Rostos Sim\u00e9tricos<\/em>, assim como de todas as funcion\u00e1rias que l\u00e1 trabalham, foi interrompida de um momento para o outro. Sofia Morgado, praticante de cabeleireiro no sal\u00e3o de beleza, desabafa que chegou a temer pelo seu emprego. \u201cManter a calma\u201d e abstrair-se de toda a situa\u00e7\u00e3o foi a forma que conseguiu arranjar para lidar com o stress e o nervosismo. Para compensar o facto de n\u00e3o estar a trabalhar, a cabeleireira decidiu encarar o confinamento como umas \u201cf\u00e9rias\u201d, um per\u00edodo de relaxamento.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Regiane Gon\u00e7alves, esteticista no mesmo estabelecimento, utiliza as palavras \u201cmedo\u201d, \u201cincerteza\u201d e \u201cinseguran\u00e7a\u201d para descrever os dois confinamentos. \u201cDe certa forma n\u00e3o sab\u00edamos se abrisse, como ia abrir, nem quantos clientes iriam voltar, ou se iriam voltar\u201d, assume. Apesar de n\u00e3o ter efetuado qualquer servi\u00e7o ao domic\u00edlio, a esteticista admite que, na eventualidade de um novo confinamento, ter\u00e1 de considerar essa necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, houve estabelecimentos que desafiaram as regras impostas pela Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade (DGS) e continuavam a atender clientes de forma clandestina. Apesar disso, Catarina Freitas confirma que o seu sal\u00e3o de beleza n\u00e3o fez nenhum servi\u00e7o ao domic\u00edlio. \u201cEra proibido e eu gosto de cumprir as regras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Admitindo que quase todos os cabeleireiros que conhece fizeram \u201cservi\u00e7os por fora\u201d, a s\u00f3cia-gerente refere que \u201cvivemos a gera\u00e7\u00e3o do olha para o que eu digo, mas n\u00e3o olhes para o que eu fa\u00e7o\u201d. Compreendendo por um lado este comportamento, no sentido que todos precisam de pagar as contas, por outro afirma que \u201ca lei \u00e9 para cumprir\u201d e que se tivesse sido levada a s\u00e9rio, as coisas n\u00e3o teriam chegado ao ponto a que chegaram. \u201cComo \u00e9 que eu posso dizer aos meus filhos que eles n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 escola e depois posso chegar a casa com unhas de gel feitas?\u201d, questiona Catarina Freitas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tamb\u00e9m os clientes n\u00e3o viam a hora de voltar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o sal\u00e3o de beleza encerrado, foram muitos os clientes que contactavam as funcion\u00e1rias em busca de dicas de como cuidar da sua imagem em casa. Regiane Gon\u00e7alves relembra que foi uma esp\u00e9cie de \u201cguia\u201d de como cuidar das unhas e m\u00e3os. Por chamada ou por mensagem, a esteticista dava orienta\u00e7\u00f5es, especialmente, \u00e0s clientes com unhas de gel. \u201cNo caso das minhas clientes, como muitas delas t\u00eam gel, n\u00e3o sabiam como tirar em casa, e eu dizia para irem limando as unhas para n\u00e3o partirem\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo este o seu espa\u00e7o de elei\u00e7\u00e3o, ao qual se costuma deslocar tr\u00eas vezes por semana, Catarina Correia, enfermeira e cliente do sal\u00e3o de beleza, admite que sentiu muita falta do cabeleireiro durante os confinamentos. \u201cN\u00f3s cr\u00edamos h\u00e1bitos ao longo da vida e quando nos tiram estes h\u00e1bitos, \u00e9 sempre dif\u00edcil. Senti falta de fazer madeixas, de lavar a cabe\u00e7a e do pr\u00f3prio conv\u00edvio\u201d. De forma a combater a impossibilidade de se deslocar ao <em>Rostos Sim\u00e9tricos<\/em>, Catarina Ferreira ainda tentou pintar o cabelo em casa, \u201cmas nunca corre t\u00e3o bem como no cabeleireiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A esperan\u00e7a da reabertura<\/strong><strong>. \u00abA primeira semana ficou \u201cquase completa\u201d\u00bb<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com a reabertura em mar\u00e7o deste ano, os telem\u00f3veis n\u00e3o pararam de tocar. A rea\u00e7\u00e3o dos clientes n\u00e3o podia ter sido melhor. No dia em que o primeiro-ministro Ant\u00f3nio Costa anunciou que os sal\u00f5es de beleza poderiam reabrir novamente, a primeira semana na agenda ficou logo \u201cquase completa\u201d. A 15 de mar\u00e7o, a vida recome\u00e7ou no cabeleireiro <em>Rostos Sim\u00e9tricos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, apesar desta corrida \u00e0s marca\u00e7\u00f5es, as coisas mudaram radicalmente. Apenas um ter\u00e7o das pessoas podem ser atendidas e h\u00e1 uma despesa muito maior com os produtos desinfetantes. Sofia Morgado, conta que, no princ\u00edpio, era obrigat\u00f3rio o uso de sapatinhos para os p\u00e9s, de viseira, de luvas, e de toalhas descart\u00e1veis. Sendo este um espa\u00e7o que envolve muito toque, ainda h\u00e1 pessoas com algum receio, mas a praticante de cabeleireiro assegura que todas as funcion\u00e1rias tentam sempre com que os clientes fiquem descansados e, neste sentido, \u201cdesinfetam sempre tudo \u00e0 frente deles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora j\u00e1 se encontrem de portas abertas, Catarina Freitas real\u00e7a que ainda s\u00e3o muitas as dificuldades que enfrentam por terem estado tanto tempo fechados, e vai mais longe: \u201ctenho que trabalhar tr\u00eas ou quatro vezes mais para ter exatamente o mesmo lucro que outros cabeleireiros t\u00eam. \u00c9 muito dif\u00edcil e h\u00e1 vezes em que desanimo\u201d. Mas, tudo ganha mais alegria e esperan\u00e7a com a chegada dos clientes, alguns j\u00e1 de h\u00e1 20 anos. Encerrado durante v\u00e1rios meses, a ess\u00eancia do <em>Rostos Sim\u00e9tricos <\/em>permaneceu, como sendo um espa\u00e7o de desabafo e de conversas. \u201cH\u00e1 quem diga que n\u00f3s somos os psic\u00f3logos de gra\u00e7a\u201d, salienta a s\u00f3cia-gerente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A valoriza\u00e7\u00e3o dos cabeleireiros como bens de primeira necessidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"537\" height=\"720\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/11231145_1447241878915408_1337203296348680999_n.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13501\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/11231145_1447241878915408_1337203296348680999_n.jpeg 537w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/11231145_1447241878915408_1337203296348680999_n-224x300.jpeg 224w\" sizes=\"(max-width: 537px) 100vw, 537px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A pandemia e os consequentes confinamentos obrigaram cerca de 10 mil sal\u00f5es de beleza e barbeiros por todo o pa\u00eds a fecharem, arrastando-os para uma crise sem precedentes e afetando quase 30 mil pessoas, entre empres\u00e1rios e trabalhadores. Ainda assim, \u00e9 poss\u00edvel retirar-se algo positivo de toda esta situa\u00e7\u00e3o. Segundo Catarina Freitas, foi preciso uma pandemia para as pessoas se aperceberem de que os cabeleireiros e os barbeiros s\u00e3o um bem de primeira necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as senhoras, cortar o cabelo, pintar e fazer madeixas; e para os homens, cortar ou fazer a barba revelaram-se, \u00e0 partida, servi\u00e7os mais importantes do que realmente se pensava. \u201cEu acho que uma pessoa que ande doente, ou deprimida, ou que tenha baixa autoestima, se for a um cabeleireiro fica logo muito mais feliz\u201d, refor\u00e7a. Foi esta aus\u00eancia que levou \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00f5es de beleza. E \u00e9 esta carater\u00edstica espec\u00edfica que cria la\u00e7os de uma vida. \u201cH\u00e1 pessoas que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 clientes, j\u00e1 s\u00e3o da minha fam\u00edlia\u201d, completa a s\u00f3cia-gerente.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, a nossa imagem d\u00e1-nos alegria; \u201cse te sentes bem por fora, ficas melhor por dentro\u201d e \u00e9 aqui que, para a gerente e funcion\u00e1rias do <em>Rostos Sim\u00e9tricos<\/em>, assenta a verdadeira natureza de um cabeleireiro. Porqu\u00ea? Porque um cabeleireiro \u00e9 isto mesmo, a imagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cabelo \u00e9 o vestido que nunca tiras.Ele fala por ti todos os dias e valoriza o teu esp\u00edrito Um<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":13500,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,11],"tags":[3746,3745,3747,76],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13296"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=13296"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13296\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13502,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/13296\/revisions\/13502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/13500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=13296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=13296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=13296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}